Me Chame pelo Seu Nome

Timothée Chalamet brilha em drama dotado de enorme sensibilidade

Por Luís Gustavo Fonseca

No verão de 1983, em uma cidadezinha no interior da Itália, Elio (Timothée Chalamet) leva uma vida bastante pacata e preguiçosa ao lado de seus pais. Entre compor suas músicas, tocar piano e “apenas esperar o verão acabar”, a rotina do jovem de 17 anos não tem muitas emoções. Entretanto, a chegada de Oliver (Armie Hammer), um acadêmico que irá ajudar o pai de Elio em suas pesquisas arqueológicas, altera este cenário. Com o visitante ficando na residência durante semanas, uma caminhada de descoberta da sexualidade do jovem se inicia, a medida que a relação entre ele e Oliver floresce.

A maioria dos filmes que estão sendo comentados nessa temporada de premiações, como “Lady Bird”, “A Forma da Água” e “Três Anúncios para um Crime”, ainda não estrearam oficialmente no Brasil. Contudo, é possível entender o porquê de “Me Chame pelo Seu Nome” ser um dos longas cogitados a disputa de categorias como Melhor Ator, Melhor Diretor e Melhor Filme, por exemplo. Muito, graças à enorme sensibilidade e delicadeza presentes na construção da história, resultando em um drama romântico que é possível se relacionar e se preocupa em desenvolver seus protagonistas.

Entre os méritos do roteiro, a contraposição entre as personalidades dos dois lados é um dos aspectos que mais se destaca. De um lado, há Oliver, o homem impulsivo e carismático, que facilmente toma conta da situação e faz com que todos simpatizem com ele. De outro, o tímido e sensível Elio, que, a princípio, detesta o novo visitante, mas que com o passar do tempo, fica cada vez mais intrigado e fascinado com sua presença. O velho arquétipo da relação que começa com os dois personagens não se gostando, mas que depois se gostam, não chega a incomodar, uma vez que esse conflito de personalidades é fundamental para desenvolver não apenas a relação entre os dois, mas também, em toda transformação pela qual Elio passa no decorrer da trama.

A descoberta e exploração da sexualiade de Elio também é outro acerto do roteiro. O texto explora bem toda a insegurança e incertezas que os novos sentimentos despertam no jovem, e em sua dificuldade em aceitar e abraçar aquilo tudo – ao menos, a princípio. A tensão existente entre os dois, além de proporcionar curiosos e bons momentos de humor, serve de artifício para que Elio possa evoluir dentro da história – é muito bom ver, por exemplo, como ele se torna cada vez mais impulsivo no decorrer do enredo.

Particularmente, penso que o relacionamento entre os dois começa de forma bastante súbita, e acredito que o roteiro poderia ter dedicado mais tempo para preparar o início entre os dois. Uma vez iniciada, todavia, a relação é muito bem construída e desenvolvida, mostrando para o que a obra veio.

Com mais de 2h10 de duração, o ritmo nem sempre é dinâmico, e há momentos que o longa tem suas travadas. Até mesmo no desfecho do terceiro ato, penso que a trama se arrasta de forma demasiada, e apesar do tom melancólico ainda causar impacto, isso proporciona certo cansaço. Outro fator que colabora para uma sensação de arrasto é a direção de Luca Guadagnino (“Um Mergulho no Passado”), mas diria que isso pesa mais a favor do que contra. Ao dar a obra uma cara de filme europeu, com uma cadência maior e algumas cenas com duração mais longa do que costuma-se ver em Hollywood, o italiano permite que seus personagens sintam cada momento – e, com isso, o espectador sinta as emoções deles também.

O ponto forte dessa estratégia é que ele deixa o filme respirar e viver esses acontecimentos. Vários dos melhores momentos da produção são desprovidos  de qualquer diálogo, mostrando apenas o silêncio reflexivo e emotivo dos personagens, sobretudo de Elio. Ao explorar as emoções estampadas no rosto dos personagens, Guadagnino proporciona ainda mais sensibilidade a trama.

O grande chamariz da trama era a atuação do duo principal, com cada um desempenhando de forma exemplar sua função na trama. Armie Hammer apresenta a segurança e presença que seu personagem demanda, em um dos trabalhos de sua filmografia em que ele mais se destaca. Não me surpreenderia se fosse indicado ao prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. Timothée Chalamet também brilha e consegue explorar e transmitir todas as emoções conflitantes existentes em seu personagem, seja falando e reagindo ao que acontece ou apenas pelas expressões em seu rosto nos já citados momentos de silêncio.

Pela temática e pela qualidade, “Me Chame pelo Seu Nome” pode seguir os passos de “Moonlight: Sob a Luz do Luar” e tornar-se um dos favoritos da Academia, conquistando algumas das estatuetas em um ano que promete ter uma disputa acirrada. As chances reais ficarão mais claras com a divulgação dos indicados ao prêmio no próximo dia 23. E não seria de se espantar que a obra Guadagnino estivesse concorrendo nas principais categorias.

Nota: 8/10.

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