The Post: A Guerra Secreta

Em tempos de fake news, novo longa de Steven Spielberg reforça a importância do questionamento às autoridades”

Por Luís Gustavo Fonseca

No começo da década de 70, os EUA se viram diante de um dos maiores escândalos – e, consequentemente, de um dos maiores embates – de sua história. O jornal The New York Times publicou uma série de reportagens no caso que ficou conhecido como “Pentagon Papers” (“Papéis do Pentágono”). O documento ultra secreto, com 14 mil páginas e feito pelo governo americano, detalhava as operações militares, diagnósticos dos resultadas e tomadas de decisão em relação a Guerra do Vietnã, conflito iniciado em 1959 e se estendeu até 1975.

Quando o presidente Richard Nixon aciona a justiça para impedir a publicação das informações presentes no documento, inicia-se a discussão que defende, por um lado, questões relacionadas segurança nacional e de soberania do governo. De outro, há a liberdade de expressão, de imprensa e do poder de fazer questionamentos em relação às decisões tomadas pelos governantes. Enquanto o processo envolvendo o Times arrasta-se para a Suprema Corte Americana, a dona do jornal The Washington Post, Kay Graham (Meryl Streep), e o editor Ben Bradlee (Tom Hanks), após conseguirem acesso aos documentos, deparam-se com o mesmo dilema: o Post deve ou não publicar as informações presentes no arquivo, com o risco de ambos serem presos por traição e o jornal sofrer um golpe irrecuperável?

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Tendo nomes de peso como Streep e Hanks e direção de Steven Spielberg (“O Bom Gigante Amigo”), não é de se espantar que The Post era tido como um forte candidato nas premiações cinematográficas do início deste ano. O longa conquistou duas indicações ao Oscar na última terça-feira (23), nas categorias de Melhor Atriz (a vigésima primeira indicação de Streep ao prêmio) e Melhor Filme. Mas há chances da obra levar alguma estatueta? Acredito não ser o caso.

Falar que Meryl Streep é um monstro de atuação e uma das melhores intérpretes da história do cinema, a esta altura do campeonato, é chover no molhado. Mas a sua mais nova indicação a estatueta não deixa de ser um questionamento se não houveram trabalhos mais impressionantes que o dela no último ano, como a da jovem Brooklynn Prince em “Projeto Flórida”, que também recebeu vários elogios da crítica especializada. Se a veterana atriz consegue tornar qualquer coisa interessante (eu assistiria, tranquilamente, a ela comentando as notícias de um jornal enquanto toma um café), não consigo deixar de ter a sensação de que ela está no modo “automático” em The Post.

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Não por ela ter um desempenho ruim (o que é bem improvável), mas por serem raras as cenas em que temos o lampejo da Streep que se entrega emocionalmente a suas personagens e, assim, consegue roubar a cena. O papel exigiu que ela atuasse de forma mais contida e isso acaba desperdiçando um pouco do talento da atriz. A sua indicação no último ano, por “Florence: Quem é esta Mulher?”, agrada-me mais e acaba sendo mais marcante, justamente por ser uma atuação que, emocionalmente, explorou melhor o talento da atriz.

Claro que quando os lampejos em “The Post” acontecem, ela engole qualquer um que esteja em cena… Inclusive Tom Hanks. Assim como no caso de Streep, a atuação do ator é satisfatória, mas nada que se destaque se comparado ao histórico do ator. Ele também tem o seus momentos e por ser um personagem mais enérgico e impulsivo, as explosões do ator caem como uma luva no papel.

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A trama de The Post concentra-se em duas narrativas: a do trabalho jornalístico por trás da apuração e publicação dos fatos relatados no documento e a transição do Washington Post de um negócio familiar para uma empresa aberta, com ações sendo vendidas em Wall Street. Apesar da segunda narrativa ter impacto decisivo na primeira, já que a venda do jornal é o fator que perturba Kay e influencia em como ela irá tratar o caso do documento sigiloso, a dinâmica do longa é um pouco prejudicada pela edição que alterna os dois núcleos. Sobretudo, pela apresentação e desenvoltura da investigação ser feita de forma mais atraente, o que faz com que os minutos dedicados a trama de Kay e da venda não despertem o mesmo interesse.

Em contrapartida, o roteiro acerta em criar o clima de tensão no desenvolver da história. Mesmo que se saiba o desfecho da história, o texto consegue dar peso e importância às decisões e ações tomadas pelos jornalistas, proporcionando uma maior imersão na investigação do grupo.

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Um timaço desses, bicho!

A direção do veterano e talentoso Steven Spielberg segue o que foi visto em alguns de seus últimos trabalhos focados em dramas históricos e/ou de época, como “Lincoln” (2012) e “Ponte dos Espiões” (2015). Mais uma vez, é incrível como ele consegue explorar e apresentar ambientes, principalmente locais fechados, de forma agradável. A câmera tem fluidez em seu movimento, aproximando-se e afastando-se dos personagens de forma sutil, o que proporciona fluidez às cenas, tornando-as dinâmicas e orgânicas. Assim como em “Ponte dos Espiões”, o diretor de fotografia, Janusz Kaminski (antigo colaborador de Spielberg) acerta ao apresentar uma fotografia que dá ao longa uma atmosfera nostálgica daquela época.

Os méritos próprios até tornam “The Post: A Guerra Secreta” um dos filmes que merece ser lembrados no ano de 2017 – ou no começo de 2018, em vista do lançamento do longa no Brasil -, mas a obra não deixa de transmitir a impressão de que poderia ter ido mais longe. Comparando-o com “Spotlight: Segredos Revelados”, que levou a estatueta de Melhor Roteiro e Melhor Filme em 2016, “The Post” não consegue impressionar da mesma maneira em relação a trama, direção ou atuações, apesar do trabalho bem feito e do timaço que teve. Até mesmo como filme sobre o jornalismo e o “fazer jornalismo”, “Spotlight” é mais memorável.

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Entretanto, a produção vale mais do que um simples esmero técnico do cinema. Em tempos de fake news e da importância de existir a liberdade para questionar as autoridades de um governo, “The Post” serve para reafirmar a importância desta liberdade e de se apurar os fatos para o grande público.

Nota: 7/10.

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