Três Anúncios para um Crime

“Feito para o Oscar, ‘Três Anúncios para um Crime’ se destaca por roteiro consistente, personagens humanos e trinca forte de atuações.”

Por Luís Gustavo Fonseca

A perspectiva de injustiça e a inconformidade com a ineficácia do sistema judicial em relação a um crime não resolvido são uma das piores cicatrizes deixadas com aqueles que perderam um parente ou um amigo querido. Não bastasse o vazio deixado pela ausência da pessoa, os que ficam ainda devem lidar com a sensação de insatisfação e indignação ao ver que aqueles que cometeram algo de errado não terão seus atos responsabilizados.

Essas são as emoções que movem Mildred Hayes (Frances McDormand, de “Ave, César!”), mãe da uma filha adolescente brutalmente assassinada na pequena cidade de Ebbing, no estado de Missouri, nos EUA. Ao perceber que as autoridades não realizam progressos na resolução do caso, ela decide chamar a atenção da polícia – e de toda a região – ao alugar três outdoors em uma estrada pouco utilizada próxima à cidade. A atitude inesperada chama a atenção de todos e causa uma repercussão negativa, colocando Mildred em conflito com alguns moradores da região, enquanto busca a justiça que há tanto tempo espera.

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Indicado a sete categorias do Oscar, incluindo prêmios de ponta como Melhor Atriz, Melhor Roteiro Original e Melhor Filme, “Três Anúncios para um Crime” é um dos longas mais distintos e, ao mesmo tempo, com cara de Oscar da premiação deste ano. A abordagem pesada e melancólica da obra é marcada por personagens falhos e, exatamente por isso, humanos, em uma trama com uma forte carga dramática – talvez seja o equivalente ao que “Manchester à Beira-Mar” foi no último prêmio – e excelentes atuações.

O roteiro indicado é escrito por Martin McDonagh (“Sete Psicopatas e um Shih Tzu”), que também dirige o filme. Entender porque ele foi indicado à primeira categoria e não a segunda é até fácil, já que ele se destaca muito mais na construção e desenvolvimento do texto. Não que a direção dele seja ruim, pelo contrário: ela consegue captar o tom melancólico do enredo, apresentando um enquadramento que sempre está próximo ao rosto dos atores, explorando as nuances presentes nas emoções faciais dos mesmos.

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Combinado à isso, McDonagh se permite a momentos de contemplação e silêncio, o que dá peso ao que é dito e ao que acontece na trama, envolvendo o telespectador ainda mais emocionalmente com a obra. Algo que potencializa ainda mais esse envolvimento emocional é a excelente trilha de Carter Burwell (“Sem Fôlego”), também indicada ao Oscar, perceptível nos momentos mais apropriados e que mescla a dor com a serenidade e a calmaria existente na pequena cidade.

O mérito maior do trabalho de McDonagh, entretanto, reside no roteiro. A busca pela justiça por Mildred é uma jornada que permite uma conexão rápida com a protagonista, mas é a apresentação e o desenvolvimento dela e de outros personagens chaves, como o chefe de polícia Willoughby (Woody Harrelson, de “Planeta dos Macacos: A Guerra”) e o policial Dixon (Sam Rockwell, da série “F is for Family”),  que transformam o longa em algo tão distinto. Existem momentos em que até pode-se dizer que eles todos são caricatos – e talvez eles realmente sejam -, mas essas caricaturas ainda são elaboradas de forma extremamente humanas, dotadas de consistência e textura, o que dá profundidade a eles.

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O diretor e roteirista Martin McDonagh: peça fundamental para que o filme funcione

A forma como Mildred responde à todos de forma seca, direta e com uma mistura de frieza e ironia, transformam a personagem em alguém peculiar e, a princípio, pouco empática. Entretanto, o texto consegue proporcionar alguma carisma à personagem, tornando mais fácil a tarefa de criar uma afeição com público. Por não ter papas na língua e vergonha de expor a sua indignação com o acontecido, ela demmonstra maior espontaneidade à suas emoções e atos, tornando tudo aquilo mais verossímel.

Essas características já seriam o suficiente para humanizar a personagem, mas o enredo vai além e mostra um pouco também suas falhas. As suas respostas duras com os outros fazem, por vezes, questionar até onde sua busca pela justiça permite que ela trate os outros de forma um tanto maldosa. A protagonista também pode não ser o melhor exemplo de uma figura materna, pois tem uma relação de carinho, mas nem sempre harmoniosa, com o filho, Robbie (Lucas Hedges, de “Manchester à Beira-Mar”), o que também era o caso da filha assassinada. Mildred é alguém que, seja antes ou depois da tragédia, sempre está em conflito, seja com as demais pessoas, seja consigo mesma.

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A exemplo da protagonista, Willoughby e Dixon também são humanizados por meio da apresentação e desenvolvimento de suas falhas, ao mesmo tempo que servem de contraponto para Mildred. O chefe de polícia pode não demonstrar o maior interesse e vontade em desvendar o caso à princípio, mas isso não faz dele alguém necessariamente ruim. Tendo também seus problemas pessoais, Willoughby desenvolve um papel importante no enredo, ao ser o fator que irá alavancar uma evolução em Mildred e, principalmente, em Dixon.

O arco do jovem policial é o mais complicado de desenvolver dentro da obra, e por isso mesmo que o resultado agrada. Com problemas de bebida e evidentemente racista, Dixon é aquele personagem detestável que funciona quase como um antagonista dentro da obra. Apesar disso, o texto o concede uma transformação e evolução pessoal, em que ele revisa sua postura e seu modo inconsequente e impulsivo de lidar (muitas vezes, por meio da agressão verbal e física) com os outros. A redenção do personagem pode até ser um tanto forçada para alguns – ela, claro, não apaga suas atitudes anteriores -, mas serve como um lembrete, sempre bem vindo, que nunca é tarde para mudar e que, para que a mudança aconteça, talvez a única coisa necessária seja um pouco de carinho e diálogo.

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Outros fatores que tornam a trama ainda mais satisfatória de ser acompanhada é a edição, dinâmica e que não causa arrasto à 1h55 de projeção. E por mais pesado e melancólico que o enredo possa ser, o texto ainda consegue proporcionar ótimos momentos de humor, que dão uma desafogada no clima tenso da história. E esses momentos de alívio podem acontecer nos momentos mais inesperados, seja em uma resposta bruta e direta de Mildred ou de uma discussão familiar interrompida por alguém pedindo para ir ao banheiro.

Certamente, é um humor diferente, que causa o riso a partir da estranheza em relação ao que é dito ou ao absurdo da situação, o que te faz perguntar “Eu deveria estar rindo disso?”. Algo que lembra o humor caricato e auto depreciativo dos irmãos Coen (“Ave, César!”) e que, dentro do longa, funciona.

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O personagem vivido por Peter Dinklage e sua relação com Mildred é um dos motivos pelo qual o humor funciona. E outra forma de humanizar a protagonista.

Junto com o roteiro, ou talvez devido a ele, o outro grande ponto da produção é a trinca de atuações McDormand-Harrelson-Rockwell. A primeira, que concorre ao prêmio de Melhor Atriz, faz o que deve ser uma das melhores atuações do prêmio deste ano. McDormand consegue transmitir toda a dor, sofrimento, revolta e determinação passível de exigir da personagem, seja no seu modo de falar, seja em suas expressões e no momento que está sozinha.

Harrelson e Rockwell concorrem à estatueta de Melhor Ator Coadjuvante. Por mais que a atuação do primeiro seja boa e sua indicação possa ser merecida, é o segundo que se destaca no quesito. Um trabalho que exigiu diferentes facetas do ator, com Rockwell conseguindo entregar uma excelente performance em cada uma delas, tanto nos momentos mais cruéis quanto nos mais frágeis do personagem.

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Três Anúncios para um Crime” é, até agora, o meu longa favorito da corrida pelo Oscar de Melhor Filme. Talvez ele seja o mais padrão e feito para o prêmio se comparado a fábula fantástica de “A Forma da Água”, a sensibilidade da auto-descoberta de “Me Chame pelo Seu Nome”, ao espetáculo tenso de “Dunkirk” ou a sátira social de “Corra!”. E mesmo que esse seja o caso, o que não consideraria um problema, o filme é um dos que mais demonstrou a capacidade de mexer com as emoções do espectador, resultando, dentro deste padrão, em algo muito distinto e único. Merece, sem dúvida, ser assistido. E também sentido.

Nota: 9/10.

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