Lady Bird – A Hora de Voar

Em sua estreia como diretora, Greta Gerwig consegue conquistar o espectador com trama singela, tocante e universal.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Poucas coisas são tão relacionáveis e universais como os dramas, as angústias e as expectativas existentes na adolêscencia. A pressão de ir bem nos estudos, de decidir que área gostaria de cursar na universidade (e consequentemente, de decidir que rumo tomar na carreira profissional), a vontade de ter muitos amigos e estar bem enturmado, aproveitar festas, de começar um romance com aquela paquera da escola, além daquela certeza (quase sempre, irritável) de achar que sabe mais do que seus pais, e que agora pode ser dono do próprio nariz… Aspectos que todos (ou quase todos) já vivenciaram e que, apesar de mudanças em certos detalhes, é um sentimento compartilhado por muita gente.

São a partir desses conflitos e desse período da vida que encontramos Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan, de “Brooklyn“), uma jovem de 17 anos da cidade de Sacramento, na Califórnia, nos EUA. Entediada pela vida pacata e sem grandes aventuras que tem na cidade, a jovem tem o desejo de estudar artes na Costa Leste americana, mas a condição financeira modesta de sua família tornam o desejo da garota mais difícil de se tornar realidade. Estudante de uma escola católica, Lady Bird teme a perspectiva de ter uma vida sem graça e medíocre ao lado dos pais, o que a faz bater de frente, principalmente, com sua mãe, Marion (Laurie Metcalf, da série “The Big Bang Theory“), em um relacionamento marcado por brigas e reconciliações.

lady-birdO longa marca a estreia de Greta Gerwig (roteirista de “Frances Ha“) no cargo de diretora, e sua estreia não poderia ter sido mais bem recebida pela crítica. A produção foi indicada a cinco prêmios importantes do Oscar deste ano: Melhor Roteiro Original (que também foi escrito por Gerwig), Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf), Melhor Atriz (Saoirse Ronan) e Melhor Filme. O número de indicações não é de se surpreender, já que entre os candidatos que concorrem a premiação de Melhor Filme, “Lady Bird” é o mais fácil de se relacionar, aproveitando-se de elementos do dia-a-dia para atingir o público com força.

Assim como foi o caso de “Boyhood: Da Infância à Juventude” há alguns anos,  “Lady Bird” aproveita-se do drama diário e dos acontecimentos corriqueiros e ordinários de uma família para criar uma relação com o espectador e, assim, desenvolver a empatia com sua protagonista. Por mais que esteja dentro de um recorte específico (uma família branca e católica americana, de classe média baixa), o texto de Gerwig é feliz em apresentar questões e situações comuns a muitas jovens, principalmente as meninas, que são o foco principal da trama.

lady-bird-and-mother-1Tudo isso ajuda a tornar o longa mais verossímil, fazendo com que os conflitos existentes tenham peso e que essas tensões sejam refletidas no desenvolvimento das personagens. A parte central desses conflitos reside na dualidade entre as personalidades de Christine, uma jovem rebelde que tem vontade de conhecer o mundo e está desesperada em afirmar sua própria identidade e independência, e Marion, uma mãe conservadora que se mata de trabalhar para gerar renda para sustentar a família. No decorrer da história, as duas se embatem repetidas vezes, sendo que a razão da discussão se alterna entre elas. A relação é marcada pelo caráter conflituoso e a dificuldade que as duas têm de expressarem seus sentimentos, mas as discussões são fundamentais para que ambas possam evoluir dentro da trama, principalmente Christine, que tem muito de seu amadurecimento provido desta tensão.

Se a produção não peca no ritmo, aproveitando muito bem às 1h35 de projeção, o maior deslize do roteiro acaba sendo em seu desfecho. Não é o caso dele ser ruim ou algo que desconstrua o longa, mas por, pessoalmente, achar que o longa não saber como terminar aquela história. Em seus minutos finais, um tanto desse lado ordinário e comum, presente em toda a obra, aparece com menos força, criando um final mais genérico.

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A diretora Greta Gerwig

Outra qualidade que se destaca no trabalho de Gerwig é sua direção de atores, que consegue tirar ótimas atuações de seu elenco. As indicações de Ronan e Metcalf são merecidas, uma vez que as duas demonstram uma excelente química, tanto nos momentos carinhosos entre as duas, mas principalmente, nas cenas de conflito, em que elas exploram ao máximmo o gênio forte e determinado de cada uma. Dentre as três vezes que Ronan já foi indicada a estatueta (além de “Lady Bird” e “Brooklyn“, ela foi indicada em 2008 por “Desejo e Reparação“), esse pode ser considerado seu trabalho mais consistente e chamativo, com ela provando seu amadurecimento.

ladybird2Em papéis menores, é possível destacar, também, a boa atuação de Tracy Letts (“The Post: A Guerra Secreta“), que vive o pai gentil e camarada de Lady Bird e é cumpre um papel de apoio muito importante para a personagem. Outra que merece elogios é a melhor amiga da protagonista, Julie (interpretada por Beanie Feldstein, de “Vizinhos 2“), que rouba a cena várias vezes com uma pegada cômica, e aproveitando para explorar uma amizade sincera com Lady Bird. Por outro lado, atores como Lucas Hedges (“Três Anúncios para um Crime“) e Timothée Clement (indicado ao Oscar por “Me Chame Pelo Seu Nome“) não são tão explorados, dando a impressão que poderiam ser melhores aproveitandos dentro do enredo.

Com seu modo singelo e tocante, “Lady Bird – A Hora de Voar” pode até sair de mãos vazias na premiação do Oscar, que acontece no dia 4 de março. Mas a produção marca não apenas um início promissor para Gerwig, que certamente terá muito para acrescentar nos próximos anos, como também brinda o público com um dos melhores e mais satisfatórios longas de 2017 e que, certamente – e merecidademente – será lembrado do futuro.

Nota: 8,5/10.

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