Pantera Negra

“Com roteiro com discurso afiado e com uma identidade própria que valoriza a cultura negra, Marvel cria produção que pode ser um divisor de águas para o gênero.”

Por Luís Gustavo Fonseca

O Pantera Negra foi o primeiro herói negro criado para o meio mainstream dos quadrinhos, em 1966, pelas mãos de Stan Lee e Jack Kirby na edição 52 da revista do “Quarteto Fantástico”. Desde então, o herói ganhou um título solo na Marvel, e com o passar das décadas, tornou-se cada vez mais popular, sendo o primeiro passo para que novos heróis negros, como o Falcão, Tempestade, John Stewart, Blade, Máquina de Combate e Ciborgue, fossem criados nos anos seguintes.

Em seu aniversário de 50 anos, o personagem apareceu pela primeira vez nos cinemas, estreando em “Capitão América: Guerra Civil”, sendo interpretado por Chadwick Boseman (“Marshall”). Apesar de ser um coadjuvante, o herói exerce uma atuação importante no desenrolar do filme, com o personagem sendo um dos mais elogiados por parte do público. Se ele já teve um ganho de popularidade na época, agora, em seu próprio filme, a promessa é de que ele se torne ainda mais querido – e muito mais representativo.

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All hail to the king!

A trama de “Pantera Negra” se passa logo após os acontecimentos de “Guerra Civil”, e acompanham T’Challa em um momento delicado, em que ele deve assumir o trono de Wakanda ao mesmo tempo em que lida com o luto pela perda de seu pai. Ao tornar-se a liderança política da nação africana, T’Challa enfrentará a difícil tarefa de conciliar os interesses internos das diversas tribos que constituem o país com a necessidade de proteger a segurança de seu povo, assim como de seu segredo mais precioso.

No Universo da Marvel, a nação é a única a ter reservas de vibranium (um resistente e maleável mineral alienígena usado para o desenvolvimento de diversas tecnologias), e apesar de serem o país mais desenvolvido do planeta, os Wakandianos preferem se disfarçar como uma nação simples e agrária de terceiro mundo. Mas deveriam eles dividirem seus avanços tecnológicos e seu conhecimento científico com o resto do planeta, sobretudo, com aqueles que mais precisam?

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Assim como foi o caso de “Mulher-Maravilha” no último ano, que tornou-se um fenômeno cultural em questão de representatividade para as mulheres, expandindo e revigorando o gênero de super heróis e sendo um sucesso de crítica e bilheteria, “Pantera Negra” chega com sua própria identidade e discurso. Se o longa não é o primeiro a ser protagonizado por um ator negro dentro do gênero (não vamos nos esquecer de “Blade”, um dos responsáveis por darem uma nova chance aos super heróis nos cinemas, após o desastroso “Batman & Robin”), a obra é a primeira, dentro desta “Era de Ouro” dos quadrinhos no cinema, a estrear com um cast majoritariamente negro, dirigido por um negro (Ryan Coogler, de “Creed: Nascido para Lutar”) e com um orçamento de blockbuster.

Se a responsabilidade era grande, o longa consegue entregar à altura das expectativas. Por estar ciente de sua importância, o roteiro, escrito por Coogler e Joe Robert Cole (da série “American Crime Story”), apresenta um discurso afiado, que reafirma e valoriza a cultura negra e algumas das tradições africanas, colocando-as como protagonista. A produção se difere dos demais longas da Marvel não apenas pelo seu teor politizado (se você é um daqueles que não vai com a cara com o “humor da Marvel”, pode ficar tranquilo), mas por ser uma das poucas produções do estúdio que conversa, de forma mais direta, com os conflitos atuais de nosso planeta, a exemplo do que “Capitão América: Soldado Invernal” fez ao trabalhar temáticas como da privacidade, espionagem dos cidadãos, direitos civis e segurança nacional. Questões como o acolhimento de refugiados, as tensões raciais e sociais existentes entre brancos e negros (que não são uma exclusividade da sociedade estadunidense), a desigualdade social e a necessidade das nações trabalharem de forma unida são alguns dos temas que norteiam a história e seus personagens.

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Nessa busca pela construção da própria identidade, o roteiro é inteligente em apresentar as características e a mitologia de Wakanda, sem ser exageradamente didático ou tornar-se repetitivo. A direção de arte do longa desempenha um papel fundamental nesse quesito, ao criar um figurino colorido, diversificado e com algumas das influências que compõe algumas das culturas que fazem parte da África. Com um simples olhar e algumas linhas de diálogo, é possível entender como cada roupa, máscara e pintura corporal tem um significado próprio, representando algo dentro daquela sociedade. A fotografia de Rachel Morrison (indicada ao Oscar deste ano por “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi”) também é exuberante, reforçando as cores presentes na tela, que nem mesmo o escurecimento do 3D consiga atrapalhar o brilho delas.

A textura e densidade do universo de Wakanda não se limitam a isso, uma vez que as próprias construções do país ajudam a tornar aquele ambiente mais rico e verossímil. Existe a mistura entre algumas das características geográficas e de vegetação que se encontram na África, tais como florestas e planícies (os Wakandianos se escondem do resto do mundo utilizando uma espécie de campo de força que projeta a imagem de uma país tomado por florestas e com pouca infra estrutura), misturado ao moderno da cidade. Assim como Asgard, a capital de Wakanda encanta e apresenta uma assinatura própria, onde a arquitetura dos arranhas céus modernos se fundem com traços tribais, criando um resultado único. Existe uma imersão típica dos longas de “Star Wars”, em que as cidades de cada planeta apresentam uma identidade autônoma.

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A trilha sonora, composta por Ludwig Göransson (“Um Espião e Meio”), é mais um fator que reforça a caracterização desta mitologia e do país fictício. Misturando batidas de tambor e instrumentos de sopro, ele cria uma trilha que consegue ser épica, mas que também apresenta doses de tensão e suspense, que se assemelha ao que foi feito para “Soldado Invernal”. O resultado é uma das mais empolgantes trilhas da Marvel até hoje.

Um dos melhores trunfos da produção está na construção de seus principais personagens, tanto os protagonistas como os coadjuvantes, o que faz com que a identidade (novamente essa palavra, tão importante para o filme quanto “representatividade”) de cada um seja desenvolvida. Sobretudo, no caso das mulheres, no que pode ser o primeiro grande reflexo do sucesso de “Mulher-Maravilha”: Nakia (Lupita Nyong’o, de “Star Wars: Os Últimos Jedi”), espiã de Wakanda e ex-namorada de T’Challa; Okoye (Danai Gurira, da série “The Walking Dead”), chefe das Dora Milaje, a guarda pessoal do Pantera Negra; e Shuri (Letita Wright, da série “Black Mirror”), irmã do Pantera Negra e responsável por criar os equipamentos do herói. É muito bom ver como cada uma delas tem uma personalidade forte própria, sua voz e seus momentos dentro da trama, o que as engrandecem.

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As mulheres de Wakanda brilham na produção.

A contraposição de T’Challa com o grande vilão da obra, Erik Killmonger (Michael B. Jordan, de “Quarteto Fantástico”) é outro ponto chave para que o enredo funcione. Com visões de mundo antagônicas (diria até mesmo extremas, de cada um dos lados), a colisão de ideias entre os dois permite uma construção simultânea da personalidade de ambos, o que os concede maior profundidade. E Killmonger é um dos (se não for o) vilões mais bem construídos da Marvel, com motivações claras, pertinentes e, principalmente, consistentes. Ele é um personagem consistente, e todo seu arco dramático é bem trabalhado, com ele apresentando questões que põe em xeque o posicionamento de neutralidade de T’Challa e de Wakanda. É quando o herói percebe como Killmonger é fruto de um mundo desigual e que o marginalizou, que ele reflete sobre sua própria postura e, assim, evolui como personagem.

Todavia, o longa não é imune a alguns problemas quanto a sua execução. O filme perde um pouco de seu fôlego durante seu segundo ato, o que atrapalha o ritmo de uma das produções mais longas da Marvel, com 2h14. A fita poderia ser 10 minutos mais curta. Algumas tomadas de decisão em relação a narrativa faz com que alguns personagens sejam desperdiçados, o que acaba limitando os caminhos que a trama poderia ter tomado, levando para um desfecho mais previsível – algo, no entanto, que já é típico dos filmes de super heróis.

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Um grande herói requer um grande vilão. E isso, o filme tem.

A direção de Coogler não é tão redonda quanto o trabalho no roteiro. As cenas de ação conseguem ser boas e empolgantes, tanto nas que exigem mais de efeitos especiais, como a perseguição de carro e a do cassino (a melhor nesse aspecto), quanto nas lutas corpo a corpo. Mas o CGI da obra não figura entre os melhores já feitos pelo estúdio, o que torna alguns segmentos, principalmente no clímax, demasiadamente artificiais.

Isso é compensado nas atuações, que a partir do roteiro amarrado, conseguem entregar muitas boas performances. O maior destaque acaba sendo Michael B. Jordan, que entrega um vilão determinado, consistente e, principalmente, empático. Sem dúvidas, ele figura entre um dos melhores vilões do estúdio (não que isso seja um graaaande desafio), assim como dos filmes de heróis dos últimos 20 anos. Chadwick Boseman também consegue entregar todo o dilema e aflição que cercam o protagonista, em uma atuação sólida.

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Como citado, cada uma das mulheres (e aqui incluo a mãe de T’Challa, Ramonda, vivida por Angela Basset, de “American Horror Story”) tem seus momentos e suas próprias identidades, e as atuações de Nyong’o, Gurira e Wright (a mais divertida e minha personagem favorita da obra) só reforçam isso. Em papéis menores, também é possível estender elogios à Daniel Kaluuya (“Corra!”), que vive o chefe da segurança das fronteiras de Wakanda, e Winston Duke (da série “Person of Interest”), o líder da única tribo do país que optaram viver isolados dos demais. Martin Freeman (da série “Sherlock”), que retorna como o agente Everett K. Ross, junta seus trejeitos cômicos com a seriedade do longa, enquanto Andy Serkis (“Planeta dos Macacos: A Guerra”), o vilão Ulisses Klaw, rouba a cena em vários momentos, com seu jeito transloucado, ao mesmo tempo engraçado e ameaçador.

Pantera Negra” funciona tanto como entretenimento pipoca que se espera dos filmes de heróis (o humor ainda se faz presente e funciona muito bem) quanto para expandir o Universo Marvel Cinematográfico. Porém, o maior legado que a produção deixa é a sua representatividade e a oportunidade de milhões de pessoas terem, finalmente, heróis e heroínas protagonistas com que elas possam se identificar. É o melhor filme de origem do estúdio e, sem dúvidas, um de seus melhores no geral. Em sua obra mais madura, a Marvel pode ter criado um verdadeiro divisor de águas, ajudando a construir um gênero (e, consequentemente, um cinema) muito mais diverso. Como a música dos trailers já diziam, a revolução não será televisionada. Mas ela acontecerá nos cinemas.

Nota: 9/10.

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