Operação Red Sparrow

Adaptação de thriller de espionagem ousa em linguagem adulta, mas apresenta execução precária e ritmo arrastado.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Um simples acaso, como um acidente durante uma apresentação de balé, pode mudar todo o destino de uma pessoa. Isso é o que acontece com a bailarina russa Dominika Egorova (Jennifer Lawrence, de “mãe!“), que quebra a perna durante uma apresentação e vê sua carreira chegar ao fim. Sem dinheiro para sustentar o tratamento da mãe doente, Dominika aceita uma ousada proposta de seu tio, membro do programa russo de espionagem: tornar-se uma Sparrow, ou seja, uma sedutora espiã, treinada na melhor e mais rígida escola de espionagem do país.

Após o penoso processo de aprendizagem, a primeira missão da protagonista será descobrir quem é o informante do governo russo que passa as informações para o agente da CIA Nathaniel Nash (Joel Edgerton, de “Ao Cair da Noite”). Isso a leva a um intenso jogo de poder, sedução e traição, que se tornará mais dramático pelo fato dos dois acabarem se envolvendo romanticamente, o que colocará em confronto os seus interesses pessoais e os dos Estados que eles representam.

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Baseado no livro escrito por Jason Matthews, o longa, comandado por Francis Lawrence (que trabalhou com a atriz na franquia “Jogos Vorazes”), chega com o intuito de apresentar uma trama de espionagem distinta. Nem tão dependente das cenas de ação, como no caso das franquias “007” e “Missão: Impossível”, e também que não seja bem humorado e satírico como “Kingsman: O Círculo Dourado” ou “O Agente da U.N.C.L.E”. Com uma abordagem adulta (não por menos, a classificação indicativa do filme é para maiores de 16 anos), a intenção é mostrar um lado menos romântico e mais aterrador do gênero.

Contudo, a execução da adaptação não funciona, principalmente devido ao roteiro, que peca em dois aspectos importantes: o ritmo da obra e o trabalho no desenvolvimento de seus principais personagens. Tendo 2h20 de duração, o longa tem dificuldade para tornar-se dinâmico e fluir de uma forma agradável. O primeiro ato, que aborda o dilema em que se encontra Dominika e o seu cruel treinamento, é o que mais prejudica o longa, ao tomar mais tempo do que o necessário, apresentando alguns aspectos que, necessariamente, não são reaproveitados posteriormente.

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O modo como o treinamento é abordado também incomoda, sobretudo pela forma em que Dominika é tratada, tendo seu corpo exposto e sofrendo diversas formas de violência, tanto física quanto sexual. Mesmo que o intuito seja realmente chocar e mostrar a brutalidade do processo (e pelo menos, a ousadia da produção em retratar isso deve ser destacada), as cenas de nudez e violência não deixam de criar o questionamento de “Isso é realmente necessário?”. A direção de Lawrence faz com que essas cenas tenham, sim, o seu impacto, mas acaba ficando por isso: um chocar pelo chocar, que tem mais um apelo visual do que narrativo. Para além disso, tanto a direção quanto o roteiro não conseguem criar uma atmosfera envolvente e imersiva, aspecto que é chave nesse tipo de produção.

Algo que compromete ainda mais esse primeiro ato é que, por mais que o processo crie um sentimento de pena e horror para com a protagonista, o texto tem dificuldades em tornar Dominika em uma personagem mais empática, fazendo com que seja mais agradável acompanhar sua jornada. E é aí que reside o outro grande problema da obra: os seus personagens e o quão desinteressantes (ou até mesmo genéricos) eles se apresentam.

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Aqui, talvez vale comparar com outro longa de espionagem, “Atômica”, que também traz uma mulher como protagonista. A diferença é que a personagem de Charlize Theron consegue ser fria e, ao mesmo tempo, badass – e que também sofre bastante em sua jornada. Já a de Jennifer Lawrence, apesar de seu sofrimento e transformação, não ganha profundidade, aparentando ser apenas uma femme fatale com uma sedução que não convence.

A trama se torna melhor amarrada e mais atraente em sua segunda metade, mas não é o suficiente para reverter o prejuízo. Outro elemento que prejudica à obra é que a química entre Lawrence e Edgerton não é das mais azeitadas, apesar do esforço de ambos. Eles funcionam melhor juntos do que separados, já que no segundo caso, a sub enredo dele perde muita força e acaba sendo mais um fator de cansaço. Essa falha nem chega a ser culpa dos atores, uma vez que a criação dos personagens fica a cargo do roteiro. Se os coadjuvantes, como Jeremy Irons (“Liga da Justiça”) e Charlotte Rampling (“Assassin’s Creed”) não brilham, ao menos entregam papéis mais sólidos e de maior presença, no espaço reduzido de tempo que eles têm.

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Por fim, “Operação Red Sparrow” tinha tudo para ser um longa de espionagem diferente, mas acaba não entregando. A sua linguagem e pegada mais adulta até traz algo de distinto para a filmografia recente do gênero, mas em vista do resultado entregue, talvez seja uma melhor experiência conhecer a história por meio do livro.

Nota: 4,5/10.

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