Jogador Nº 1

“Steven Spielberg retorna em grande estilo ao universo dos blockbusters, em adaptação certeira e repleta de referências a cultura pop.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Talvez seja impossível falar dos anos 80 e do gênero de blockbusters sem citar o nome do célebre diretor Steven Spielberg. Ele foi o responsável por criar o primeiro grande blockbuster do cinema, “Tubarão“, em 1975, e desde então, criou outros diversos sucessos comercias, que conquistaram o público no mundo todo. Os anos 80 e 90 foram marcados pelo seu ápice, com o lançamento de longas como “E.T – O Extraterrestre“, a trilogia “Indiana Jones“, “Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros“, além da trilogia “De Volta para o Futuro”, de qual foi produtor.

Recentemente, contudo, o diretor tem se dedicado a trabalhos mais sérios e que não visam um grande espetáculo visual, como “Lincoln“, “Ponte dos Espiões” e “The Post: A Gurra Secreta“. Por isso mesmo, a sua volta ao gênero de blockbuster, em uma produção que tem como premissa ser uma grande homenagem aos anos 80 e à cultura pop em geral, não poderia ser mais bem-vinda e providencial. Ao adaptar “Jogador Nº 1”, escrito por Ernest Cline, Spielberg tem a chance de mostrar ao público, mais uma vez, o que sabe fazer de melhor.

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Escolher o virtual ao real: será que estamos condenados a isso?

A história acontece em um futuro distópico, no ano de 2045. Grandes problemas, como crise energética, fome e pobreza assolam o planeta, que aparenta estar cada vez menos interessado em resolver essas questões. Isso acontece, em parte, devido à criação do OASIS: uma realidade virtual aumentada, em que você pode ser o que quiser. Uma verdadeire utopia, onde não existem problemas e a população tem a chance de esquecer aqueles do mundo real.

Como se não bastasse a possibilidade de ter a vida dos sonhos dentro de um videogame, o OASIS ainda ganha um outro atrativo. Ao morrer, o criador do jogo, James Holliday (Mark Rylance, de Dunkirk“), deixa um desafio para todos os jogadores: encontrar um tesouro deixado por ele, um easter-egg, que recompensará aquele que o encontrar com uma fortuna bilionária, além de controle total do OASIS. Para conquistar o prêmio, os jogadores devem resolver enigmas e encontrar três chaves dentro do jogo. Um desses jogadores é o jovem Wade Watts (Tye Sheridan, de “X-men: Apocalipse“), que irá competir com diversos jogadores e grandes empresas pelo controle do OASIS.

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Além de ser a volta de Spielberg à direção de um blockbuster, outro fator que me enchia de expectativas era a adaptação do livro. Tive a oportunidade de lê-lo em 2012 e posso garantir que é uma das leituras mais gostosas e proveitosas que você pode ter. A leitura é fácil e ágil, os personagens são carismáticos e o universo, repleto de todas as referências culturais que você pode imaginar, é chamativo e atraente. Seria um desafio, porém, adaptar uma história que acontece durante semanas em uma produção de 2h20.

Felizmente, isso não foi um problema. O roteiro é escrito pelo próprio Ernest Cline ao lado de Zak Penn (“Os Vingadores“) e consegue criar uma história tão dinâmica e boa de se acompanhar como no livro, em um ritmo que não perde o fôlego e não cansa. O enredo não é dos mais complexos, mas isso não é um demérito. O universo é bem apresentado e fácil de se assimilar, as motivações dos principais personagens são claras e as relações, em sua maioria, construídas de maneira sólida.

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Quanto a adaptação do material original, os fãs do livro podem ficar tranquilos. O longa tem mudanças claras em relação ao livro, mas com o envolvimento do autor no roteiro, a produção encontrou saídas inteligentes, agradáveis e que fazem sentido. Abre-se mão, evidentemente, de alguns detalhes que tornam o livro tão especial, como um simples diálogo de bate papo entre dois personagens, ou aspectos específicos do OASIS e de sua repercussão naquele univero. Por outro lado, a alternativa encontrada para às telonas, além de oferecer a chance para que os leitores possam ser surpreendidos por novos twists da trama, apresenta um resultado promissor e que não descaracteriza à obra literária.

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Não só de homenagens aos anos 80 vive o filme. Espere referências há vários filmes e jogos clássicos

As referências à cultura pop, sejam elas visuais ou nos diálogos, servem à história e ao seu maior objetivo: homenagear a própria cultura pop e, consequentemente, o próprio Spielberg. E que trabalho fantástico faz o veterano diretor. Em “The Post“, destaquei a habilidade dele em explorar os ambientes filmados, com uma câmera que se movimenta de maneira fluída e dinâmica. Ele traz o espectador para dentro do filme, e aqui, essa característica é elevada ao nível do espetáculo.

A primeira grande cena de ação do longa é fantástica, e mostra a capacidade do diretor em criar sequências empolgantes, em que ele não erra a mão no decorrer da obra. Spielberg sabe entreter como poucos, e aqui, ele realiza o sonho geek de brincar com ícones como Gigante de Ferro, Gundam, DeLorean e o boneco Chucky, misturando eles e muito mais em uma sequência grandiosa. Há o esmero característico do seu trabalho, com ele sabendo os momentos de desacelerar o filme para trabalhar os personagens mais íntimos. Assim como em outros de seus filmes, ele se esforça para criar personagens carismáticos e que tenham facilidade em conduzir a trama.

Todavia, apesar deste esforço, o ponto mais fraco – ou, sendo mais justo, o menos atraente – da obra são as atuações. Não que os trabalhos estejam ruins, mas não há ninguém que se destaque ou esteja acima da média. Ao menos, a química entre o personagem de Sheridan com Art3mis (Olivia Cooke, da série “Motel Bates“) e Aech (Lena Whaite, da série “Master of None“) funciona muito bem. Ben Mendelsohn (“O Destino de uma Nação“) , que interpreta um executivo da IOI, empresa que planeja assumir o comando do OASIS e torná-lo pago, é um antagonista satisfatório, que atende o requisito da trama. Entretanto, seu trabalho como vilão em “Rogue One: Uma História Star Wars” é mais marcante. Mark Rylance e Simon Pegg (“Star Trek: Sem Fronteiras“) não decepcionam, mas aparecem pouco, dando a sensação que suas boas participações são um tanto desperdiçadas.

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Visualmente, a produção é impecável, havendo uma riqueza de detalhes nos cenários e na caracterização dos personagens que ajudam na imersão do longa. Mesmo sendo tudo digitalizado, o visual é dos seres e cenários é muito crível e bem elaborado. Surpreendentemente, o 3D acrescenta profundidade às cenas, com o resultado ficando ainda mais agradável na projeção IMAX, que amplia a sensação de grandeza daquele universo. A trilha de Alan Silvestri (“A Travessia“) é outro acerto, com ele acertando, além da escolha de canções da época, na composição de uma trilha moderna e com o tom aventuresco que a obra precisava.

No meio de um mar de referências e homenagens, que eu acredito ser impossível o espectador pegar todas na primeira vez que assiste ao filme, “Jogador Nº 1” apresenta uma aventura divertida e feita com muito carinho. O maior mérito da obra talvez resida em mesclar um longa com este tom com um alerta sobre o uso descontrolado e indevido da tecnologia e a preferência do mundo virtual ao real. Uma mistura que poucos poderiam entregar como Steven Spielberg.

Nota: 8/10.

 

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