Um Lugar Silencioso

“Agoniante e imersivo, suspense de John Krasinski é um filme que exige e merece ser visto no cinema.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Imagine viver sem ter que fazer nenhum som. Caso contrário, uma criatura cega e selvagem viria em seu rastro e te mataria. Atos banais, como correr, preparar um alimento ou dirigir algum veículo poderiam significar a morte, sendo que, aparentemente, não há defesas contra o monstro. Dessa premissa, que poderia facilmente ser um longa da franquia “Cloverfield” ou um novo filme do diretor M. Night Shyamalan (“Fragmentado”), surge um dos suspenses mais emblemáticos e bem realizados desta década.

A trama acompanha a família de Evelyn (Emily Blunt, de “A Garota no Trem”), Lee (John Krasinski, de “Detroit em Rebelião”) e seus filhos, que tiveram que mudar totalmente seu estilo de vida após a chegada das misteriosas criaturas. Vivendo em absoluto silêncio, conversando pela língua de sinais e tomando todas as precauções possíveis para não emitir nenhum som, eles sobrevivem em uma fazenda no Meio-Oeste americano. A gravidez em estágio final de Evelyn, entretanto, será um dos novos desafios que a família deverá enfrentar para continuar sobrevivendo.

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Não faça barulho!

A produção é dirigida e roteirizada por Krasinski, conhecido pelo seus trabalhos como ator na série de humor “The Office” e que, aqui, dirige seu terceiro filme. E, sem dúvidas, entrega o seu trabalho mais impressionante na direção! Entre os vários fatores que fazem “Um Lugar Silencioso” funcionar, o esmero em criar uma ambientação tensa e assustadora é uma das principais qualidades da produção. Algo semelhante ao que ocorreu com o ótimo “Ao Cair da Noite” no último ano, mas ao invés da sensação de tensão ser fruto de ambientes fechados e escuros, é o silêncio que cumpre esse papel aqui.

Causa inquietação a falta de sons na produção, uma vez que estamos tão acostumados aos barulhos e aos diálogos presentes nos demais filmes. Krasinski valoriza esse silêncio e a forma de como construir o longa em cima das raras conversas e de cenas mais contemplativas. Cada movimento, cada ação que substitui uma fala, ganha mais importância e significado, sendo que nada fica sobrando em tela. Tudo é preciso. A construção do universo é excelente e feita de maneira sutil, por meio de pequenos detalhes. Como os diálogos são escassos, o diretor tem que mostrar as estratégias desenvolvidas pela família para viver naquela situação, como caminhar pela areia para fazer menos barulho ou não usar pratos nas refeições. Elementos que tornam aquele mundo mais verossímil.

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Além da excelente fotografia da obra, o posicionamento de câmera de Krasinski explora muito bem as emoções dos personagens, uma vez que, sem falas, são pelas expressões deles que os atores expõem toda a intensidade de uma cena. Isso ressalta o ótimo trabalho de atuação não só de Krasinski, mas também de Blunt – outra vez em uma grande atuação e que, sem dizer nada, consegue transmitir sentimentos de medo, amor e coragem em uma única cena -, como dos jovens Noah Jupe (“Extraordinário“) e Millicent Simmonds (“Sem Fôlego”), que também entregam uma atuação convincente e sólida nas cenas em que são mais exigidos. A química entre os quatro funciona muito bem (vale lembrar que Krasinski e Blunt são casados na vida real), e isso só reforça a empatia que o espectador sente com os personagens.

O roteiro, assinado por Krasinski ao lado de Bryan Wood e Scott Becks, é outro primor. Pouco se sabe sobre as criaturas ou sua origem. Entretanto, esse é um caso onde “menos é mais”, com o mistério envolvendo os monstros colaborando para aumentar a tensão causada por elas. Assim como nos clássicos “Tubarão” e “Alien”, o texto foca na situação em que as personagens se encontram, e o que elas devem fazer para superá-la.

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A produção não é longa, tendo apenas 1h30, mas o ritmo é excelente e não se perde na alternância entre os momentos de terror e outros mais tranquilos, focados no desenvolvimento dos personagens e suas relações. Esse, aliás, é um aspecto importante, uma vez que, para além da situação totalmente adversa, existe um drama familiar que não é deixado de lado e que também é fundamental para a trama. O balanceamento entre o terror e a tensão com o lado emocional é um dos principais trunfos da obra, e um dos motivos dela funcionar tão bem. O texto se utiliza de um ou outro clichê mais tradicional, seja pela opção de introduzir alguns jump scares típicos do gênero, ou em algumas decisões do roteiro. Contudo, absolutamente nada que prejudique a obra.

A grande cartada final do longa reside em sua parte sonora. É aqui que a produção se torna ainda mais agonizante e tensa, e que a imersão chega ao seu ápice. Como o menor ruído pode significar o perigo e a morte, a cada vez que o silêncio é interrompido, a tensão dentro da trama aumenta exponencialmente. Um simples bater de mão em um vidro, por exemplo, ganha contornos mais dramáticos, soando como um estrondo mortal. Mérito da equipe de edição e mixagem de som, que transformam esses sons menores e aparentemente inofensivos em estratégias para deixar o espectador ainda mais tenso. A trilha de Marco Beltrami (“Logan“), quando acionada, também é para manter o clima tenso e sufocante. Assim como os personagens, você não quer fazer o menor barulho possível.

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“Um Lugar Silencioso” é, até agora, o meu filme favorito de 2018, e que deve – e merece! – ser visto no cinema, para que a experiência possa ser completa. Agoniante, tenso e carregado de emoção, o suspense/terror consegue ser brilhante tanto em sua parte mais humana e sutil quanto nas horas de criar aflição em seu público. Assim como no caso de Jordan Peele no último ano com “Corra!, a produção pode ser um ponto de partida para que outro ator conhecido pela comédia, chegue para acrescentar novas perspectivas ao gênero de terror. E pelo seu cartão de visitas, mal posso esperar pelo próximo trabalho de Krasinski.

Nota: 9,5/10.

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