Vingadores: Guerra Infinita

Um marco não só para a Marvel Studios, mas para o gênero de super-heróis.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Em 2008, a Marvel Studios apresentava ao mundo seu primeiro filme, “Homem de Ferro” e, com isso, dava um passo importante para mudar a história da indústria cinematográfica para sempre. A partir do momento em que Nick Fury convida o herói para ouvir mais sobre a “iniciativa Vingadores”, o estúdio apostava todas as suas fichas na ideia de um universo compartilhado, o MCU (sigla para “Marvel Cinematic Universe”), que uniria personagens de diferentes filmes em um grande encontro. Algo que era, até então, inédito – ao menos, na escala em que se propunha.

Desde então, foram outras 17 produções de sucesso comercial e, em sua grande maioria, também de crítica, que consolidaram o estúdio, seu universo e legitimaram o gênero de super-heróis. Ao longo desta década, personagens que não desfrutavam do mesmo nível de popularidade do que um Batman, um Homem-Aranha ou os X-men, tornaram-se queridos pelo mundo todo e alcançaram o status de ícones. No ano em que completa 10 anos, o estúdio chega ao seu ápice com sua 19ª produção, “Vingadores: Guerra Infinita”, que coloca os Heróis Mais Poderosos da Terra, aliados aos Guardiões da Galáxia, contra a maior ameaça que enfrentaram até hoje: o titã Thanos (Josh Brolin, de “Ave, César!”), que deseja destruir metade da vida existente, para trazer, o que ele acredita ser, o balanço perfeito para o universo.

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Talvez o maior destaque da obra, e que ficou comigo desde que assisti ao longa na última quinta-feira (26), é como “Guerra Infinita” é um filme difícil de classificar, que, ao mesmo tempo, se parece e não parece com os demais filmes da Marvel, ocupando uma posição única. Claro, a produção tem várias das características que consagraram o estúdio nesses anos todos, como o seu humor e o destaque na personalidade de seus heróis, mas também apresenta algo de diferente. Ao longo de suas 2h30, o filme cria uma verdadeira montanha russa de emoções, trazendo um clima de tensão e de expectativa que não se viu em longas mais despretensiosos e leves como “Guardiões da Galáxia”, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” ou “Thor: Ragnarok”.

A entrada dos irmãos Joe e Anthony Russo, diretores de “Capitão América: Soldado Invernal” e “Guerra Civil”, tem muito para colaborar com essa mudança de estilo no filme que reúne os dois grupos. Ao contrário do espetáculo divertido, arrojado e marcante de “Os Vingadores”, comandado por Joss Whedon, “Guerra Infinita” chega com um tom mais sóbrio, grave e tenso, mostrando um amadurecimento em relação à primeira reunião dos heróis. Aliás, um amadurecimento de todo o MCU, em um enredo que ainda propõe (e entrega) um espetáculo visual, mas que também trabalha o lado emocional de seus personagens, principalmente de sua maior estrela: Thanos.

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Se a Marvel sempre foi acusada de desenvolver vilões medianos e esquecíveis – como já falamos aqui -, Thanos consegue pagar, se não tudo, ao menos boa parte desses anos de mediocridade. Toda a história gira em torno do vilão, que é o verdadeiro protagonista da trama, e que consegue corresponder às expectativas geradas desde sua breve aparição na cena pós-créditos de “Os Vingadores”. Os suspiros da trama das grandiosas batalhas acontecem, principalmente, em momentos centrados nele, aproveitando para desenvolver o antagonista, sua personalidade, motivações e visão de mundo, além da relação com os demais personagens, em especial a Gamora (Zoe Saldana, de “Guardiões da Galáxia Vol.2”).

O diferencial é que ele não é apenas mais um vilão megalomaníaco e sedento por poder, mas alguém que acredita piamente em seu ponto de vista, e que se vê como um bem feitor, alguém que fará o bem para todos. A sua motivação e seu objetivo, apesar de insanos (afinal, ele quer cometer o genocídio de metade do universo), são aprofundados e trabalhados com um esmero que raramente se teve na Marvel ao longo dos anos. Muitas vezes sereno, o antagonista conquista o respeito do público, conseguindo ser carismático e ameaçador ao mesmo tempo, com Josh Brolin tendo uma presença de cena formidável, no que é, de longe, a melhor atuação da produção. Se os efeitos especiais com os Filhos de Thanos não estão tão refinados assim, com seus comandantes parecendo personagens de videogame, isso é compensado pelo trabalho feito na captura de movimentos do vilão. As expressões de Brolin conseguem ser captadas e retratadas com grande fidelidade, e justamente por o filme ter uma carga emocional acentuada, a tecnologia explora melhor as diversas emoções transmitidas pela atuação do ator.

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O roteiro é outro ponto que diferencia “Guerra Infinita” de seus filmes irmãos dentro do estúdio. A trama toma decisões mais ousadas, que realmente transmitem a sensação de perigo para os personagens, dando ao espectador a sensação do risco que representa a empreitada dos heróis. O tão comentado desfecho pode até apontar para alguns caminhos óbvios para a sequência, mas isso não retira o peso e a gravidade dos acontecimentos. Realizar uma aventura desta proporção, de tons épicos e com uma miríade tão grande de personagens, de modo que os diferentes núcleos se conectassem de forma coesa, que fizesse sentido e que ainda construísse um bom vilão (até então, superficialmente explorado), era uma tarefa quase impossível. Mas, talvez para a surpresa de muita gente, os irmãos Russos, ao lado dos roteiristas Christopher Marcus e Stephen McFeely, conseguiram. O resultado é algo digno desses 10 anos de Marvel Studios.

Claro, a produção não é livre de deslizes. Em alguns momentos, o clássico humor da Marvel aparece de forma um tanto deslocada, fora de timing, principalmente em algumas piadas envolvendo o núcleo dos Guardiões da Galáxia, que apresenta contraste com o restante dos personagens. E por mais que seja um deleite ver os heróis enfrentando o temível vilão, a produção conta com algumas “barriguinhas” que prejudicam um pouco o ritmo da obra. Não de forma tão evidente quanto em “Pantera Negra”, mas existem de 5 à 10 minutos que poderiam ser cortados para o longa ficar (ainda) mais redondo.

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Outra questão é o tempo de tela para cada um dos heróis, com alguns sendo subaproveitados. Desde o início, essa seria uma tarefa complicada, já que a produção conta com mais de uma dezena de heróis e filmes como os da franquia “X-men” já demonstraram a dificuldade em encontrar o balanço ideal para todos eles. Contudo, é notável como “Guerra Infinita” consegue, em boa parte de sua projeção, encontrar espaço para que cada um tenha um momento próprio, mesmo que pequeno. Acredito que o Pantera Negra e o restante do núcleo de Wakanda poderia ter sido melhor explorado – sobretudo depois do sucesso estrondoso do longa do personagem – mas os irmãos Russo já adiantaram que aqueles que não tiveram tanto destaque neste filme, irão ter mais tempo de tela no próximo – fiquem no aguardo para verem o Gavião Arqueiro arrebentando no ano que vem!

Se alguns são subutilizados, isso é compensado pela interação entre os personagens, que entregam justamente o que os fãs queriam. O encontro dos Guardiões com os Vingadores, o duelo de egos entre Tony Stark e o Doutor Estranho, Viúva Negra e Okoye lutando lado a lado, além do desenvolvimento de relações já mostradas anteriormente, como a de Visão com a Feiticeira Escarlate. Entre piadas, provocações e discordâncias, a união dos heróis apresenta uma dinâmica envolvente, de excelente química e que entrega tudo o que poderia se esperar deste encontro. A melhor representação disso é quando eles combinam suas habilidades para enfrentar os adversários, seja o exército invasor, os filhos de Thanos ou mesmo o próprio Titã Louco. São nessas horas que as salas de cinema se transformam em um verdadeiro estádio de futebol, com o público vibrando a cada nova façanha dos heróis.

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Assim como foi o caso de “Guerra Civil” e, especialmente, de “O Soldado Invernal”, a ação e as lutas deste novo capítulo dos Vingadores é bem feita e ágil, com os combos entre os heróis dando uma nova dimensão para os enfrentamentos. Os confrontos em Titã e Wakanda conseguem ter uma magnitude épica, mas também mostram uma tensão incomum em filmes da Marvel, que consegue criar a aflição, no espectador, de que seu personagem favorito pode não sobreviver ao embate. Mérito dos irmãos Russo, em criar a junção praticamente ideal entre um nível emocional de um drama com o grande espetáculo blockbuster.

Em relação às atuações, é difícil apontar destaques além de Brolin, uma vez que o filme está apinhado de pessoas e nem todo mundo tem tempo para desenvolver o seu trabalho. Mas vale as menções para as atuações em algumas das cenas mais marcantes da projeção, protagonizando Elizabeth Olsen e Paul Battany, Chris Hemsworth (conseguindo apresentar uma evolução do seu viés de comédia em “Ragnarok”) e Bradley Cooper, e Tom Holland e Robert Downey Jr. Agora, a trilha de Alan Silvestri, que retorna ao MCU após sua ótima composição de “Os Vingadores”, merece aplausos de pé. Ele pode ter superado seu trabalho no primeiro filme, criando uma trilha que captura todas as qualidades, as emoções, a tensão e a sensação de glória que a produção proporciona. A faixa “Forge” é que, julgo eu, melhor representa esse mix:

Para encerrar, seria “Guerra Infinita” o melhor filme da Marvel até hoje? Ou, pensando mais alto, o melhor filme de super heróis de todos os tempos? Pelo o que ele se propõe, pelo que entrega e, principalmente, pelo que representa, sendo a culminação de um projeto inovador e pioneiro em Hollywood, talvez (e bem talvez) a resposta seja “sim”, ao menos para a primeira pergunta. Ainda é muito cedo para determinar, além de ser uma questão que leva em conta diversos pontos e o apreço que cada um tem com produções anteriores. Entretanto, não é loucura colocá-lo em um patamar semelhante de outras obras consagradas, como “Homem-Aranha 2”, “Batman: O Cavaleiro das Trevas” e o recente “Logan”.

Mas para compará-lo aos demais, volto ao ponto que mais me motivou em fazer esse texto – e que mais me travou em fazê-lo também: como classificar “Vingadores: Guerra Infinita”? Talvez a comparação mais justa é que ele seja o que melhor funciona como uma “Parte 1” desde que a moda de “Parte 1” e “Parte 2” começou com “Harry Potter e as Relíquias da Morte” – e que era o melhor exemplo de narrativa neste estilo até então. Mas ele poderia ser, também, o “Império Contra Ataca” desta geração? A comparação é clichê, uma vez que desde o lançamento do episódio V da série intergalática, todo segundo filme de uma trilogia (como é o caso do mais recente “Star Wars: Os Últimos Jedi”) tenta ser o novo “Império”, feito que poucos conseguiram. Mas “Guerra Infinita” não é o meio de uma história de três partes, mas o 19º episódio de uma história de, no mínimo, 22 capítulos.

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Pensando dessa forma, “Guerra Infinita” pode ser o equivalente a um gigante e ambicioso episódio 9 de “Game of Thrones”. O tradicional penúltimo capítulo da série de Westeros sempre apresenta os acontecimentos mais bombásticos da temporada, e apesar de ser o mais chocante, ele não é conclusivo e definitivo, dando espaço para desdobramentos na semana seguinte. Talvez seja o caso de “Guerra Infinita” ser uma mistura estranha, mas que funciona, destes exemplos com a epicidade de um “Senhor dos Anéis” e da fórmula Marvel. Se o gênero de super-heróis realmente for o faroeste moderno, que daqui à 50 anos estará longe de sua glória, então “Vingadores: Guerra Infinita” merece ser lembrado como uma referência clássica, tal qual “Era Uma Vez no Oeste” ou “Três Homens em Conflito” – não por apresentar as mesmas qualidades, mas por tudo aquilo que ele é e representa. E dificilmente, haveria honraria melhor para esse filme.

Nota: 9/10.

 

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3 comentários sobre “Vingadores: Guerra Infinita

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