Deadpool 2

Sequência estrelada pelo Mercenário Tagarela entrega humor irreverente, mas peca no drama e fica aquém do original.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Em 2016, “Deadpool” chegou ao (cada vez mais cheio) mundo dos super heróis com uma série de peculiaridades que o distinguiam dos demais longas do gênero: com uma classificação indicativa para maiores de 18, a produção apostava em cenas de violência e sanguinolência pesadas, piadas infames envolvendo sexo e masturbação e o fato do protagonista conversar com o público e ter ciência que está dentro de uma obra cinematográfica, reproduzindo uma das características do personagem mais conhecidas. Tudo isso afastado do restante do universo dos X-men e embalado como uma “história de amor”, vendido tanto no marketing do filme quanto dito dentro da própria trama.

Pois bem. Dois anos depois e já sendo perceptível alguns dos desdobramentos do sucesso da obra (melhor exemplificado pela existência de “Logan”), o Mercenário Tagarela retorna para uma sequência em que ele, desta vez, define como “uma história de família”. O enredo acaba por cruzar os caminhos do anti-herói (vivido por Ryan Reynolds, de “Dupla Explosiva”) com o mutante Russell (Julian Dennison, de “A Incrível Aventura de Rick Backer”), um jovem capaz de conjurar fogo pelas mãos e que foi cruelmente torturado em uma clínica de reabilitação, devido à existência dos seus poderes. Isso servirá de gatilho para transformar o garoto, causando graves repercussões no futuro, o que levará Cable (Josh Brolin, de “Vingadores: Guerra Infinita”) a voltar no tempo para matar o Russell, no melhor estilo “Exterminador do Futuro”. Em vista disso, Deadpool resolve montar um time com super habilidades, a “X-Force”, para tentar impedir o mutante do futuro.

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O maior desafio para o protagonista nessa continuação é como, afinal, criar um resultado que seja tão impressionante quanto o longa original. O escopo da continuação é maior, seja na gravidade proposta pelo roteiro, na ação (com um orçamento maior, as sequências estão mais grandiosas e dependentes dos efeitos especiais), ou no peso dado ao antagonista, Cable. Com isso, a equipe criativa apostou na estratégia de reproduzir os elementos do primeiro filme que deram certo, tais como o humor ácido e a violência das cenas de luta.

Nesse sentido, o novo capítulo consegue, de fato, estar no mesmo patamar do primeiro. O carrossel de piadas, referências à cultura pop e interações que o protagonista tem com o público são um prato  cheio do que melhor a produção pode oferecer. As frases e sacadas são bem encaixadas, tornando a obra mais irreverente e proveitosa de ser vista, e não prejudicam o caminhar do enredo, ao mesmo em que o roteiro encontra espaço para apresentar novos personagens, expandindo o universo que gira em torno do anti-herói. Sim, algumas das piadas podem ser polêmicas ou infantis demais, mas o fato do Deadpool não se importar com as besteiras que diz, de não se levar a sério, independentemente da gravidade da situação, é o que torna ele em um personagem tão distinto dos demais do gênero.

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Than… Cable está vindo!

Ao quebrar a quarta parede e brincar com “Vingadores: Guerra Infinita”, o universo DC dos cinemas, ter uma entrada no estilo James Bond (ao som de Celine Dion!) ou comentar a ausência de mutantes famosos da franquia dentro da obra, o personagem reforça sua relação com o espectador. Ele sabe que a produção se trata de um blockbuster pipocão e despretensioso, feito para descontrair o público e fazer um caminhão de dinheiro. Por isso mesmo, tanto o anti-herói quanto roteiro entendem que o objetivo principal da sequência é divertir o público, e esse ponto é devidamente cumprido por eles.

Algo que potencializa o humor presente é a atuação de Ryan Reynolds na pele desfigurada do protagonista. Se em 2016 ele deu uma “carta de apresentação” com o personagem, agora ele confirma que é uma das melhores encarnações de um super herói até o momento. Extremamente carismático, o ator entrega todas as piadas com naturalidade, sem causar a sensação de que algo que esteja sendo dito ali seja forçado ou gratuito – o que poderia facilmente acontecer, numa busca de fazer alguma referência apenas pela própria referência.

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A interação dele com os demais personagens, em sua maioria, também funciona, o que reflete em outras boas participações dentro da obra. Josh Brolin pode não ter a mesma presença de cena de “Guerra Infinita”, mas a sua participação, sisuda e mais dramática, oferece o contrapeso ideal para a o humor que impulsiona o protagonista, criando uma dinâmica satisfatória entre os dois. Outra adição valiosa, que ajuda a expandir o universo e incrementar a comédia de filme, é a mutante Dominó, vivida por Zazie Beetz (da série “Atlanta”). Além de interagir bem com os demais personagens, ela se mostra um ótimo acréscimo para as sequências de ação, uma vez que o texto explora muito bem os poderes da mutante, capaz de alterar as probabilidades para que a sorte sempre esteja ao seu lado.

Todavia, é na relação entre Deadpool e Russell, tida como central para a trama, que a produção não consegue acompanhar o seu antecessor, uma vez que a parte dramática da continuação não funciona – ao menos, não tão bem quanto o do primeiro. Em 2016, eu disse que o enredo “de vingança e resgate da amada é bem raso”, fruto de uma narrativa simplória e que não tinha a ambição de se arriscar muito. Não chega a ser um problema grave, uma vez que o longa compensou isso de outras formas.

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Entretanto, o primeiro filme apresenta uma consistência em sua parte dramática, por mais que ela não seja o foco. A relação entre Wade Wilson e Vanessa (Morena Baccarin, da série “Gotham”) é apresentada e desenvolvida de forma que você se importe com os dois, dando mais peso a decisão de Wade de se afastar da esposa para se tratar do câncer (o que resulta em sua transformação no infame mutante), e depois em sua jornada para resgatar ela no terceiro ato. Nada de inovador, mas que funciona.

Aqui, a relação entre ele e Russell também é banhada no clichê, do personagem que não quer se aproximar de alguém mais fraco, mas que acaba se arrependendo e se esforça para compensar o erro de julgamento. Mas não existe liga entre os dois, seja na química nas atuações, ou no elo emocional, mal desenvolvido pelo roteiro. Faltou um capricho maior para lapidar a virada que faz com que Deadpool, realmente, se importe com o garoto, e que você compre essa mudança do personagem. Dessa forma, toda vez que o longa tenta ser mais dramático, ele perde a mão e fica bem destoante da qualidade do seu humor, criando momentos distintos da obra.

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A ação, agora capaz de explorar grandes sequências repleta de efeitos especiais, é satisfatória, com a projeção IMAX dando ainda mais imersão para as cenas de luta e tiroteio. Contudo, é impossível não ter a sensação que ela poderia ser bem mais visceral e impactante, em vista que o responsável pela direção era David Leitch, responsável por “John Wick” e “Atômica”, produções que se destacaram nos últimos justamente por entregar uma ação diferenciada, mais crua e bem coreografada.

O diretor até tenta, em determinado momento, reproduzir o excelente plano sequência de “Atômica”, mas além de ser mais curto, o excesso de CGI causa a sensação de estranhamento, algo que se estende para outras lutas com os personagens computadorizados. Outro ponto em que a continuação fica atrás do original é na trilha sonora, com a saída de Junkie XL (“Tomb Raider) para a entrada de Tyler Bates (“Guardiões da Galáxia Vol. 2”), em uma de suas trilhas incidentais mais esquecíveis da memória recente.

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No fim das contas, “Deadpool 2” cumpre sua proposta de diversão, vale a ida ao cinema e se mostra uma continuação válida. A produção entra na mesma categoria de comparações “injustas” entre primeiros filmes que causaram um grande impacto, como “Kingsman: Serviço Secreto” e “Guardiões da Galáxia”, com suas sequências. Acredito que, tal como o Vol. 2 de “Guardiões”, o novo longa do Mercenário Tagarela pode não estar no mesmo patamar do original, mas ainda sim, apresenta qualidades de sobra para justificar sua existência.

Nota: 7,5/10.

P.S.: O filme tem uma ótima e hilariante cena após os créditos animados, não saia do cinema antes da hora!

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