Os Incríveis 2

Com visual renovado e um roteiro atualizado e bem construído, aguardada sequência corresponde às expectativas dos fãs”

Por Luís Gustavo Fonseca

Antes do grande boom dos filmes de super-heróis, que hoje dominam o mercado cinematográfico como o principal tipo de blockbuster, a Pixar se aventurou no gênero, lançando sua própria versão do Quarteto Fantástico em 2004. O divertido e empolgante longa é um pelo qual tenho imenso carinho, uma vez que ele marca a primeira vez que fui ao cinema, sessão até hoje marcada para mim. A mistura das características típicas do universo dos heróis com uma ambientação de espionagem que lembra os primeiros filmes de 007 são apenas alguns dos fatores que fizeram me apaixonar pela carismática família Pêra, no que defendo ser um dos melhores filmes do estúdio da luminária saltitante – e isos não é pouco para quem já fez obras como a trilogia “Toy Story“, “Procurando Nemo“, “Wall-e“, “UP – Altas Aventuras” e “Divertida Mente“, entre outros excelentes filmes.

O gancho óbvio do final do primeiro criou a expectativa para uma continuação, que não demorou três ou quatro anos, mas 14 para ser lançada! A sequência inicia exatamente no ponto em que o primeiro parou, com a família Pêra tentando evitar o ataque do misterioso Escavador. A ação e os danos causados do conflito colocam os heróis mais uma vez nos holofotes, obrigando o governo a realocá-los novamente, com a diferença de que, agora, o auxílio federal acontecerá pela última vez, já que o programa de proteção aos heróis está sendo encerrado. Sem muitas alternativas, Beto e Helena acabam sendo seduzidos pela proposta de Winston, um milionário e fervoroso fã de super-heróis que deseja reverter a lei que proíbe as ações dos benfeitores. Planejando ter a Mulher Elástica como garota propaganda que mostrará ao mundo a importância da legalização dos heróis, ele convida a heroína a colocar novamente o manto e a combater o crime – enquanto Roberto fica em casa para cuidar das crianças.

Nem mesmo o vilão do novo longa era um adversário pior do que a expectativa acumulada por quase uma década e meia para essa sequência. Afinal, era uma missão árdua para continuação se colocar em um nível semelhante ao do original, mantendo o carisma dos personagens e o peso do roteiro. Felizmente, o diretor e roteirista Brad Bird (“O Gigante de Ferro”, “Ratatouille”) corresponde à essas expectativas e entrega um resultado com uma trama atual e divertida, visualmente gratificante e que traz algo de diferente para o gênero de super-heróis.

incredibles-2-still-04_756_426_81_s

Em relação a animação, é impressionante o salto na qualidade do traço, nos detalhes dos visuais dos personagens e na ação em si, que estão em um patamar bem acima do primeiro. O desenho está mais refinado, realçando melhor as cores dos ambientes e dando uma aparência mais vívida para aquele universo. Felizmente, ainda há uma pegada cartunesca no visual de alguns dos personagens, com traços mais quadradões e que fogem um pouco da animação 3D predominante na indústria hoje, mas essas são algumas das características que fazem este universo tão único. Se as sequências de ação do primeiro são ótimas, Bird aproveita a experiência acumulada neste meio tempo, em que dirigiu “Missão: Impossível – Protocolo Fantasma”, para montar segmentos igualmente bem construídos, que empolgam e, sobretudo, exploram bem o uso das habilidades dos heróis na trama (alô Hollywood, cadê o filme do Portal!?).

A história é outro ponto em que, predominantemente, o diretor acerta. A ambientação que remete às décadas de 50 e 60 continua lá, principalmente no visual, mas os temas não poderiam ser mais atuais. Ao colocar Helena como a provedora do lar, algo que ela mesmo diz que talvez seja a hora, o texto gera um empoderamento bem-vindo à personagem. O acerto ganha maior impacto porque não resume essa reconfiguração como um discurso igualitário jogado, sem aprofundamentos. Pelo contrário, é a partir dessa mudança que o enredo encontra o caminho para desenvolver melhor a personalidade de Helena, mostrando um lado seu distinto do longa anterior, agora mais centrado em seus anseios e desejos próprios. A alteração também dá uma nova dinâmica para a ação, uma vez que os poderes da Mulher Elástica transformam as sequências como um todo, diferente do uso da força bruta do Sr. Incrível em boa parte do primeiro filme.

As discussões em torno da mesa são um dos pontos que mostram o drama familiar de uma família com super poderes. E isso é uma das estratégias que humanizam os personagens, tornando-os muito mais fáceis de se relacionar.

Paralelo a isso, existe o desenvolvimento, também bem feito, de Roberto, agora tendo que lidar com a posição de um pai que deve cuidar dos filhos e ajudá-los nas questões familiares do dia-a-dia, como o dever de casa da escola, o drama do primeiro amor ou toda a preocupação que cuidar de um bebê (super poderoso!) pode causar. Como a própria Edna Moda cita (em mais uma participação hilariante), o papel de um pai é uma das tarefas mais importantes que o homem pode ter. A princípio, Beto está insatisfeito com a posição e com inveja da “vida de aventuras” da esposa, mas com o decorrer do longa, ele reconhece a ausência como pai que ele teve no passado – e como isso afetou a relação com os filhos – e aprende a importância que sua presença tem no ambiente familiar. Novamente, é um lado diferente do que apresentado no original, e que mostra outro ótimo crescimento de personagem dentro da trama.

Mais uma prova da atualização do roteiro para o contexto atual em “Os Incríveis 2” é a temática sobre a midiatização dos heróis e esse anseio do público em consumir, e mesmo desejar, todo tipo de conteúdo midiático sobre eles – ou gerado por eles próprios. Para legalizar novamente as atividades dos heróis, a ideia de Winston tem, como desdobramento, a criação de uma espécie de reality show dos mocinhos, uma vez que, por meio da gravação em vídeo de suas boas ações, espera-se mostrar outra perspectiva dos conflitos para o público, mostrando um lado diferente da destruição e dos estragos que seus embates causam e que são explorados pela mídia. Se, por um lado, a ideia tem como objetivo inocentar os heróis e seu lado dos acontecimentos (ou, ao menos, suas boas intenções), por outro, ela reforça, mesmo que não intencionalmente, uma certa sensação de passividade da sociedade, de que todos os problemas poderiam ser resolvidos pelos heróis e que caberia a ela apenas apreciar o espetáculo das grandes batalhas.

INCREDIBLES 2
Novos poderes, novas habilidades e uma ação diferenciada.

Esse é um dos pontos trabalhados pelo vilão da produção, o Hipnotizador. O antagonista em si não é um dos pontos fortes do texto, já que ele não tem a mesma presença, carisma e nível de ameaça que o Síndrome do original, sobretudo pelo laço emocional que ele tinha com a família Pêra. Mas a crítica dele ao consumo exagerado, na qual o público se tornou um escravo das telas da televisão, de computadores ou do celular (tanto que seu nome em inglês é Screenslaver, algo como “o escravista das telas”) não deixa de ser uma descrição aproximada de uma parcela considerável da população hoje. Há até algo de metalinguístico nesse discurso. O recente sucesso estrondoso de produções com super-heróis como “Pantera Negra” e “Vingadores: Guerra Infinita” poderia ser um indicativo de que o público, também, está “escravo” das telas de cinema, optando por viver nesse escapismo das telonas, ignorando os problemas atuais – algo que, ironicamente, “Os Incríveis 2” pode estar reforçando.

Em contrapartida aos arcos de Helena e Roberto, o trabalho com a história das crianças não têm o mesmo esmero, sobretudo se comparado ao deles no original. Claro, vai ser impossível não cair na risada com o Zezé e sua vasta gama de poderes, e ele funciona perfeitamente como um alívio cômico, encaixando-se no filme de forma semelhante ao de Baby Groot em “Guardiões da Galáxia Vol. 2”. Contudo, apesar de continuarem carismáticos, as tramas de Flecha e Violeta não tem o mesmo peso. O velocista está mais próximo de ser outro ponto de humor da obra do que um ponto dramático, sem aquele desejo de querer e poder usar seus poderes, algo que diferenciava da visão da mãe no primeiro. Já a história de Violeta aqui cai muito mais para um lado de drama adolescente clichê, revoltada com os pais – o que não é, necessariamente, algo ruim – mas que não está no mesmo patamar de sua jornada de descoberta e auto-afirmação do primeiro, na qual ela cresceu muito como personagem.

incriveis 04

Assim como no primeiro, o encaixe de todas essas subtramas é feito de uma forma incrivelmente balanceada para um filme de equipe, fazendo com que as 2h de produção raramente pesem. O filme abre mão um pouco de sua vibe de espionagem a lá os filmes antigos de James Bond, um dos fatores pelo qual sou mais apaixonado no primeiro, e isso acaba afetando a trilha sonora de Michael Gianchinno (“Jurassic World: Reino Ameaçado”). Entretanto, não se engane: ela está tão espetacular quanto a do original, sabendo ser presente e sutil nos momentos mais dramáticos, assim como acelerada e épica nos momentos de ação. A dublagem brasileira é outro ponto positivo, com a manutenção da equipe de redublagem do primeiro, assim como mantendo algumas das peculiaridades da nossa língua na produção.

Ao subir dos créditos, “Os Incríveis 2” mostra que a espera de 14 anos pela sequência valeu a pena, com Brad Bird e a Pixar provando terem desenvolvido uma trama atual e divertida, e que fizesse jus ao primeiro filme. O longa prova que é possível gostar ainda mais desses personagens, e a expansão deste universo na sequência aponta para as demais possibilidades de ação que a família Pêra pode ter neste mundo. Um terceiro filme não seria um exagero – não no nível de um “Carros 3”, ao menos -, desde que não fossem necessários mais 14 anos de espera para isso.

Nota: 8,5/10.

P.S.: Com uma boa metáfora para as diferentes etapas da vida e todo o cuidado que uma mãe tem com seu filho, o curta que abre a animação, “Bao”, marca também a primeira vez que uma mulher, Domee Shi, dirige um curta para a Pixar. Outra bola dentro do estúdio.

Anúncios

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s