Venom

Tom Hardy se esforça, mas não consegue salvar produção sem identidade de desempenho pífio”

Por Luís Gustavo Fonseca

Em 2015, a Sony fechou um acordo com o Marvel Studios que indicava uma mudança radical na forma com que ela lidava com o universo do Homem-Aranha, herói que o estúdio tem os direitos de licenciamento, mas que não vinha tendo o mesmo sucesso de público e crítica que conquistou na última década. O personagem passou a integrar o Universo Cinematográfico da Marvel, tendo aparecido em três ocasiões de 2016 para cá: “Capitão América: Guerra Civil”, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” e “Vingadores: Guerra Infinita”.

Apesar do sucesso readquirido pelo personagem, agora vivido por Tom Holland, a Sony não demonstra estar interessada em se ater ao calendário de lançamentos da Marvel. Pelo contrário: o estúdio tem planos em expandir o universo ligado ao Cabeça de Teia, mesmo que essas produções, focadas em outros personagens que se relacionam ao herói aracnídeo, não tenham ligação alguma com o que a Marvel vem criando nos cinemas. Neste contexto, “Venom”, que traz para os holofotes um dos vilões mais icônicos do herói, é a primeira produção do estúdio que visa essa expansão de universo.

venom 02

Na trama da obra, a Fundação Vida, comandada com mãos de ferro por Carlton Drake (Riz Ahmed, de “Rogue One: Uma História Star Wars”), está desenvolvendo uma ambiciosa e perigosa pesquisa sobre os simbiontes, seres alienígenas trazidos do espaço pela Fundação. O plano de Carlton, que sonha em explorar e colonizar outros planetas, é utilizar os simbiontes, que necessitam de hospedeiros para sobreviver, neste processo. Com a ajuda de uma das cientistas que faz parte da equipe de experimentos, o repórter Eddie Brock (Tom Hardy, de “Dunkirk”) invade as instalações da empresa para registrar os abusos cometidos pela Fundação, com o intuito de denunciá-la para a imprensa.  Entretanto, ele acaba entrando em contato com um dos simbiontes, que passa a hospedar seu corpo. A nova parceria com o “parasita”, chamado de Venom, colocará sua vida em risco, e ele terá que aprender a conviver com o ser se quiser sobreviver.

O vilão, popular nos quadrinhos, já havia aparecido nos cinemas em outro filme: o infame “Homem-Aranha 3”, de 2007, longa que é sinônimo de 7×1. A nova chance do personagem, contudo, tem um resultado tão pífio quanto sua aparição anterior. Ao longo de pouco mais de 1h50, o filme peca tanto em apresentar e desenvolver personagens cativantes, que não sejam extremamente superficiais, quanto em criar uma narrativa que fuja do clichê.

venom 04

Claro que, por se tratar de um filme de origem, responsável por apresentar novos conceitos sobre a mitologia do personagem para o público, o roteiro dificilmente fugiria deste formato. O problema é que a jornada proposta pelo longa é, muitas vezes, entediante e até arrastada, mesmo com a produção sendo mais curta que outras obras do gênero de super-heróis. O primeiro ato preocupa-se, sim, em estabelecer Eddie e seus principais conflitos, como a perda de seu emprego (que é causada pelo próprio Carlton) e o fim de seu relacionamento com Anne (Michelle Williams, de “Beleza Oculta”). Entretanto, esse drama (que é até demasiadamente explorado na primeira metade do filme) compete espaço, ainda, com mais dois núcleos distintos, justamente os relacionados ao antagonista da produção. A edição não consegue fazer com que esta transição entre as subtramas seja feita de forma atraente, o que pode desgastar o espectador e causar uma impressão que o filme é maior do que realmente é.

O fraco trabalho do texto em relação ao desenvolvimento dos personagens também é um ponto negativo. Sobretudo, porque as principais motivações dos personagens são frágeis, superficiais, o colabora para que eles sejam mais caricatos e, portanto, menos profundos. Carlton é um dos antagonistas mais clichês que tivemos nos últimos 10 anos no gênero de heróis (e olha que vários vilões da Marvel entram nesta lista), mas seu discurso não é vazio e ele é pouquíssimo ameaçador, não tendo peso algum dentro de cena. Anne também é uma coadjuvante desperdiçada, sem uma narrativa própria, e que é utilizada apenas para ajudar Eddie, mas nem assim, o roteiro consegue aprofundar o relacionamento dos dois. Com isso, as atuações tanto de Ahmed como de Williams são prejudicadas, com o trabalho da dupla sendo facilmente esquecível.

venom 01

Pelo seu lado simbionte, o próprio Venom (que tem um visual muito mais aprimorado que o de 10 anos atrás) também não conta com um arco sólido. Por mais que ele flerte em abraçar o lado vilão que muito se esperava dele, a sua jornada no decorrer da trama o leva a uma virada de narrativa pouco convincente e até mesmo brega. A relação dele com Eddie alterna entre momentos de boa química para outros de pura galhofa e que nada acrescenta. Aliás, Eddie é único personagem que o espectador pode ter uma empatia maior, talvez por ser mais explorado. Isso deve-se, muito, ao esforço de Tom Hardy na produção. O ator consegue vender a sensação de que Venom o perturba mentalmente, e que aquilo o abala. Nos raros momentos em que o humor funciona (ele definitivamente fica mal encaixado no teor da obra), é graças as caretas e trejeitos que o ator incorpora ao personagem.

Um dos problemas de “Venom” é a falta de identidade que o longa carrega, e um dos melhores exemplos disso é a direção de Ruben Fleischer (“Caça aos Gângsters”), fraca e pouca inspiradora. A ação da obra é mediana, com as sequências pecando, em alguns casos, pecando em não mostrar o vilão em ação (o acobertando com fumaça), tendo muitos cortes, planos mais fechados e caindo em um dos principais erros de Hollywood, que é de gravar grandes lutas em cenas noturnas. O melhor momento fica na sequência de perseguição a moto de Eddie, já mostrada em alguns dos trailers do longa, e que mostra as várias possibilidades que o uso das habilidades do alienígena podem ter, mas que raramente são exploradas.

venom 05

O próprio fato do filme ter uma indicação mais branda, ao invés de ser indicado para maiores, como é o caso de “Deadpool”, pode ser um dos motivos que tornam a produção tão genérica. Sobretudo porque, em vários momentos, o longa poderia ter explorado melhor a violência e a sanguinolência características do personagem. Desta forma, “Venom” falha em criar um impacto mais positivo do que o causado em “Homem-Aranha 3”. Pouco consistente, sem carisma e sem peso dramático, a obra configura-se como uma tentativa falha da Sony de apresentar algo que, além de expandir o universo do Homem-Aranha, trouxesse algo de diferente para o cenário dos heróis. Um começo fraco e pouco memorável para a proposta do estúdio, que deverá repensar sua abordagem se quiser continuar com essa exploração de personagens secundários do herói.

Nota: 3,5/10.

Anúncios

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s