O Primeiro Homem

Chegada do homem à Lua ganha contorno humano e intimista no novo e ótimo trabalho de Damien Chazelle

Por Luís Gustavo Fonseca

No próximo ano, um dos acontecimentos mais importantes da do século XX comemora 50 anos. A chegada do homem à Lua foi um capítulo marcante na história da humanidade, na acirrada disputa da Guerra Fria e no desenvolvimento tecnológico que aconteceu na época. Com direito a transmissão ao vivo para o mundo todo, o dia 24 de julho de 1969 ficou gravado na mente de toda uma geração, e viria a ser abordado nas décadas seguintes por inúmeros filmes, documentários, livros e especiais para a televisão. O longa “O Primeiro Homem” é mais um a abordar o peso da conquista deste acontecimento.

A trama tem como objetivo mostrar não apenas o histórico momento do pouso na Lua, mas também, toda a preparação enfrentada por Neil Armstrong (Ryan Gosling, de “Blade Runner 2049”) durante a década de 60 para que a missão fosse realizada. A obra busca explorar os desafios enfrentados pelos pilotos durante os diversos testes que antecederam a missão lunar e o clima de tensão existente em detrimento da corrida espacial contra a União Soviética. Porém, ela também desenvolve o drama pessoal enfrentando por Neil com sua família e, sobretudo, o luto carregado pelo piloto após a perda da filha pequena, algo que marcou toda sua trajetória até a o “grande salto para a humanidade”.

Film Title: First Man

Em seu primeiro trabalho após ter vencido o Oscar de Melhor Diretor por “La La Land”, o diretor Damien Chazelle, o mais novo cineasta a conquistar o prêmio, apresenta uma pegada distinta de suas obras mais recentes, que também inclui “Whiplash: Em Busca da Perfeição”. Ele deixa de lado o tom musical de seus filmes mais recentes e adentra uma abordagem mais dramática e íntima, explorando o feito da conquista por uma nova nuance. A chegada à Lua já foi celebrada em outras oportunidades, portanto, Chazelle foca em mostrar o quão desafiadora e, sobretudo, aterrorizante foi todo este processo.

Para isso, o diretor usa de forma inteligente um posicionamento de câmera que prioriza close-ups mais fechados, que foquem o rosto dos personagens e, assim, minimiza o espaço em que eles se encontram (algo semelhante ao que foi feito no thrillerAo Cair da Noite”). Isso cria uma sensação de claustrofobia que propositalmente incomoda o espectador, fazendo-o perceber quão arriscado todos os testes para missão eram. Ainda hoje, viagens espaciais são arriscadas, mas os planos fechados e a câmera tremida  nas cenas de voo amplificam a sensação de medo dessas tarefas.

first man 03

Essa câmera mais próxima também ajuda a tornar o filme mais íntimo, fazendo com que você fique mais próximo do protagonista. Chazelle pode até não apostar nos planos sequências que o consagraram em “La La Land”, mas não esquece de trazer um esmero técnico e uma sensação de grandiosidade para a obra, principalmente no momento da chegada à Lua, em que ele explora ao máximo o formato IMAX. Seu único pecado, contudo, é trazer as tremidas da câmara também para cenas mais quietas e que não exigiam o uso do artifício, o que chega a incomodar em alguns momentos.

Outro vencedor do Oscar envolvido na produção é o roteirista Josh Singer, vencedor da estatueta por “Spotlight: Segredos Revelados”. Assim como no longa sobre a investigação do jornal de Boston, Singer acerta ao humanizar os principais personagens e as relações desenvolvidas por eles. Mostrar como eram as amizades entre Neil e os demais membros dos programas Gemini e Apollo, assim como os riscos e as dificuldades dos diferentes testes aplicados pela NASA durante o treinamento dos astronautas, são algumas das estratégias que trabalham essa humanização.

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Nenhum recurso narrativo, todavia, é feito com tanto esmero quanto o desenvolvimento do luto de Neil após a sua filha, Karen, falecer. Isso serve como motivador para sua ambição em tornar-se um astronauta (uma forma diferente de explorar a ambição que moveu o personagem de Milles Teller em “Whiplash”), o que o aprofunda como personagem, ao mesmo tempo em que ele internaliza isso de tal forma que acaba afastando-se de outras pessoas, em especial sua esposa, Janet (Claire Foy, da série “The Crown”). Isso cria uma tensão no relacionamento dos dois, agravada pelo temor que ela tem dele se ferir ou mesmo morrer durante as missões, que vai sendo construída durante toda a trama e aponta para um evidente conflito. A mescla desse drama familiar e do objetivo de chegar à Lua faz com que mesmo tendo 2h20 de duração, o ritmo seja eficiente e que a atenção do espectador seja apreendida.

A produção tem boas atuações, o que também é uma marca importante da filmografia de Chazelle, mesmo que, aqui, talvez não sejam as mais impressionantes de sua filmografia. É uma atuação mais compenetrada e de maior presença de Ryan Gosling do que em relação ao seu trabalho em “La La Land”, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, mas menos carismática e que não explora tanto outras emoções do ator em sua performance. Se no musical de 2016, a química com Emma Stone (“Guerra dos Sexos”) colaborou muito para que o ator carregasse o longa, aqui Gosling apresenta uma química satisfatória com Foy, mas menos impactante. Isso porque, em vários momentos, o texto acaba deixando a personagem de lado, não dando muito espaço para ela e, com isso, prejudicando o trabalho da atriz. Com menos tempo de tela, Jason Clark (“A Maldição da Casa Winchester“) e Kyle Chandler (“A Noite do Jogo“) acabam sendo uma boa dupla de coadjuvantes, acrescentando ao resultado final.

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Por fim, o último grande mérito da obra reside em sua parte sonora, algo que para aqueles que tiverem a oportunidade de experimentar o filme em IMAX, tornará a experiência ainda mais gratificante. Como exemplos recentes de temática espacial, tais como “Gravidade” e “Interestelar”, a produção toma cuidado no que tange aos sons presentes dentro das espaçonaves e no espaço, uma vez que isso é uma parte que colabora e muito para a ambientação do enredo. A trilha de Justin Howirtz, vencedor do Oscar por “La La Land”, consegue se fazer presente no longa, somando um toque mais sentimental nas partes mais intimistas, assim como ser desesperadora e épica nos momentos de maior turbulência enfrentado pelo protagonista.

Se “Nasce uma Estrela” deu a largada para a corrida ao Oscar, “O Primeiro Homem” é mais uma obra que se posta como um dos concorrentes aos principais prêmios da Academia. Ao mostrar uma narrativa que consegue ser tão intimista como outros de seus trabalhos, mas em um escopo mais grandioso e sobre uma história já explorada em outras oportunidades, Damien Chazelle prova não apenas suas qualidades de outrora, mas sua versatilidade em fazer algo diferente do que já mostrou antes. Como eu havia dito em “La La Land”, o recente crescimento do diretor é uma das melhores coisas que aconteceram no cinema nesta década. E os fãs da sétima arte agradecem.

Nota: 8,5/10.

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