Millenium: A Garota na Teia de Aranha

“Genérica e sem personalidade, nova adaptação da série Millenium passa longe de repetir as qualidades do longa de David Fincher”

Por Luís Gustavo Fonseca

Em 2011, a série de livros sueca “Millenium”, escrita pelo jornalista Stieg Larsson, conseguiu ganhar ainda mais popularidade mundial ao ter seu primeiro livro, “O Homem Que Não Amava as Mulheres”, adaptado por Hollywood pelo diretor David Fincher (“A Garota Exemplar”). A obra, estrelada por Daniel Craig (“007 Contra Spectre”) e Rooney Mara (“Maria Madalena”), foi bem recebida pelo público e crítica, com a produção conseguindo ser indicada em cinco categorias do Oscar – e levando uma estatueta para casa. Contudo, uma continuação para o filme nunca saiu do papel… Ao menos, até agora.

Desta vez, a Sony optou por dar uma repaginada na franquia, contando com novos nomes em frente e atrás das câmeras. “A Garota na Teia de Aranha” é uma adaptação do quarto livro da série, escrito pelo também jornalista David Lagercrantz após o falecimento de Larsson, e que foi lançado em 2015. Desta vez, Lisbeth Salander (interpretada agora por Claire Foy, de “O Primeiro Homem”) se vê diante de uma conspiração de espionagem internacional, envolvendo um programa de computador capaz de controlar o arsenal nuclear de diversos países. Para evitar que a ferramenta caia em mãos erradas, ela deverá contar com a ajuda, mais uma vez, do jornalista Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnason, de “Borg vs McEnroe”), em um trama que conduzirá Lisbeth a revisitar os fantasmas de seu próprio passado.

A Garota na Teia de Aranha 04

A nova produção tenta se distanciar tanto da versão de Fincher como dos três longas suecos que adaptaram a trilogia original, mas comparações – principalmente com a obra americana, mais recente – são inevitáveis. O diretor uruguaio Fede Alvarez (do ótimo “O Homem nas Trevas”) se esforça para colocar sua própria identidade no filme, mas não consegue criar algo que seja marcante, com uma personalidade própria. Apesar da competência na condução das cenas e na fotografia, Alvarez não reproduz o mesmo trabalho imersivo de seu último filme, entregando um thriller bem filmado, mas convencional e genérico, que pouco se diferencia de outros filmes de espionagem.

Algo que reforça essa sensação é o roteiro, que aposta em outra abordagem em relação ao longa de Fincher. Com mais ação e uma pegada que lembra, por momentos, “007 Contra Spectre”, a obra deixa de lado o tom investigativo e de mistério que domina a produção de 2011, e que foi um de seus principais trunfos. Essa transformação faz com que qualidades do longa anterior sejam esquecidas, tais como o desenvolvimento dos personagens (mesmo que este explore o passado do Lisbeth) e o aprofundamento da relação entre eles. O caso que melhor representa isso são os dos protagonistas, Lisbeth e Mikael, algo que foi o cerne da produção anterior, mas que aqui é tratado de forma muito mais fria, superficial e pouco envolvente.

2119167 - Girl In The Spiders Web

É verdade que as quase 2h40 de “O Homem que Não Amava as Mulheres” pode cansar parte do público, mas um dos méritos do filme é tornar esse tempo proveitoso, desenvolvendo uma história que instiga o público a querer acompanhar sua resolução. A edição, que trabalha muito bem os núcleos de Mikael e Lisbeth, foi reconhecida com um Oscar. Elementos que, contudo, estão ausentes agora. A trama não foca apenas no duo protagonista, e isso faz com a dinâmica da obra como um todo não seja eficiente e ágil, por vezes mostrando cenas que são desnecessárias. Sem o aprofundamento dos personagens, a história se torna desinteressante, e as cerca de 2h de projeção parecem tão longas quanto ao do filme de 2011.

O campo das atuações é outro que evidencia o caráter genérico de “A Garota na Teia de Aranha”. O elenco conta com bons nomes como Sylvia Hoeks (“Blade Runner 2049”) e Lakeith Stanfield (“Sorry To Bother You”), mas o texto não permite que eles criem personagens bem construídos, com personalidade, o que limita o que eles podem fazer. Apagado e até mesmo tímido, Sverrir Gudnason não está nem perto de entregar uma atuação com uma presença tão grande quanto Daniel Craig, o que prejudica demais a obra. Mesmo não tendo o mesmo ar introspectivo e determinação de Rooney Mara, o esforço de Claire Foy é o que mais compensa de se ver em tela, mas que não consegue alterar o resultado final.

A Garota na Teia de Aranha 01

Em uma tentativa de retomar a franquia com novos ares, “A Garota na Teia de Aranha” falha, ao menos, em estar no mesmo patamar da adaptação de 2011. Mais do que não conseguir reproduzir a mesma ambientação misteriosa e perturbadora do que o longa de David Fincher, a produção também não apresenta uma identidade própria, que a fizesse se destacar dentro do próprio gênero de espionagem. Um resultado aquém da qualidade dos livros.

Nota: 4/10.

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