Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

“Novo capítulo ajuda a expandir a franquia e mitologia, mas excesso de subtramas atrapalha ritmo e desenvolvimento de personagens.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Em 2016, a estreia de “Animais Fantásticos e Onde Habitam” marcou o início de um novo capítulo do universo Harry Potter. Ao voltar para a década de 1920 e apresentar um novo protagonista, a autora J.K. Rowling teve a chance de dar vida a novos personagens e enriquecer a franquia que ela idealizou nos livros. Para além disso, ela tinha a oportunidade de detalhar, como não não havia sido explorada antes, uma passagem importante da história: ascensão e queda do bruxo Grindelwald. Sobretudo, a grande batalha que ele travou com Alvo Dumbledore, episódio no qual o futuro diretor de Hogwarts passaria a ser o dono da Varinha das Varinhas.

“Os Crimes de Grindelwald” marca o segundo capítulo de uma história planejada para cinco partes. Após os acontecimentos do primeiro filme, Newt Scamander (Eddie Redmayne, de “A Garota Dinamarquesa”) se vê impedido de sair do Reino Unido sem autorização do Ministério da Magia britânico. Enquanto ele está relutante em aceitar a trabalhar para o governo bruxo, é contatado pelo seu antigo professor e mentor, Alvo Dumbledore (Jude Law, de “Rei Arthur: A Lenda da Espada”), para ser encarregado em uma missão: ir atrás de Creedance (Ezra Miller, de “Liga da Justiça”), que sobreviveu ao final do longa anterior e fugiu para Paris. Newt deverá encontrá-lo e ajudá-lo antes de Grindelwald (Johnny Depp, de “Assassinato no Expresso do Oriente”). O vilão, após conseguir fugir da prisão, tentará encontrar e guiar, mais uma vez, o jovem Creedance para o caminho das trevas.

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De muitas formas, a nova produção mantém boa parte das características estabelecidas na obra anterior. O roteiro, assinado por Rowling, apresenta, novamente, uma abordagem mais madura desse universo, com temáticas e desdobramentos que tentam ter um maior senso de gravidade se comparados aos demais filmes da franquia “Harry Potter”. Apesar de mais sério, a autora não esquece de temperar a história com a pegada aventuresca característica de diversas adaptações da série, sendo essa a combinação responsável por moldar a identidade de seu mundo mágico.

Com isso, ela repete alguns dos acertos executados por ela na trama de 2016, que marcou sua estreia como roteirista em Hollywood. Uma delas é a habilidade de expandir o universo, apresentando novos elementos que o tornam mais rico e, consequentemente, mais imersivo. Mesmo sem terem o destaque do filme anterior, as criaturas mágicas continuam tendo relevância para o enredo, com Rowling ainda acertando em cheio ao caracterizar as habilidades de cada uma delas, de maneira simples e efetiva, fácil para a assimilação do público. As linhas de humor, na maior parte do tempo, ajudam a deixar o longa mais divertido e proveitoso, mas sem diminuir o peso dos momentos dramáticos.

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Entretanto, a condução da trama não tem o mesmo capricho. Um dos motivos causadores disso é a quantidade de subtramas que a história quer apresentar e desenvolver, tudo de uma única vez, o que prejudica seriamente a dinâmica da produção. Além de mostrar a arquitetação do novo plano de Grindelwald e da jornada de Newt atrás de Creedence, o texto ainda tenta encontrar espaço para, pelo menos, mais quatro arcos menores.

São eles: a busca de Creedence, ao lado da maledictus Nagini (Claudia Kim, de “A Torre Negra“), por sua mãe e sua própria origem; a reconexão entre Newt e Tina (Katherine Waterson, de “Alien: Covenant”), brigados após o fim do primeiro; o passado misterioso de Leta Lestrange (Zoe Kravitz, da série “Big Little Lies“) e seu envolvimento com Newt; e a tentativa de Queenie (Alison Sudol, de “Between Us”) de fazer conseguir com que sua relação com Jacob (Dan Fogler, da série “The Walking Dead”), um não bruxo, seja aceita dentro da comunidade mágica.

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A quantidade de arcos acaba pesando a desenvoltura do texto e isso resulta em uma edição bagunçada, criando uma história mais desconexa. Tendo 2h14 de projeção (um minuto a mais que o primeiro), o incremento de subtramas faz com que não haja tempo suficiente para o desenvolvimento dos personagens e de suas relações. Isso fica mais evidente ao reparar como a química entre os quatro mocinhos não empolga da mesma forma de antes, apesar de as circunstâncias serem distintas agora. E uma vez que a interação entre eles foi, justamente, um ponto positivo do primeiro filme, perceber essa queda é um tanto decepcionante.

Algumas soluções preguiçosas por parte de Rowling, como a justificativa mostrada para a questão de como Jacob não teve sua memória apagada após os acontecimentos anteriores, também são um ponto que incomoda. A pior característica dessa abordagem da autora, contudo, é a quantidade de viradas que o filme, está desesperado em apresentar no seu último arco. Dá para contar ao menos três principais reviravoltas, que acabam se atropelando e tendo seu impacto diminuído.

FANTASTIC BEASTS 2

A decisão causa estranheza, pois ainda há mais três produções para desenvolverem o arco maior do enredo, e certamente haveria tempo para apresentar e desenvolver, no mínimo, a principal virada, no próximo. É uma sensação semelhante ao que Rian Johnson fez em “Star Wars: Os Últimos Jedi”, com a diferença de que, desta vez, o longa acaba logo após essas grandes mudanças.

Para além do roteiro, a obra também repete alguns dos acertos do último episódio. Após ganhar um Oscar – o primeiro da franquia – em 2017, a equipe de figurinagem tem, mais uma vez, o cuidado em mostrar como as roupas refletem o momento dos personagens, sendo o caso de Queenie é o que mais chamará a atenção. Os efeitos visuais acertam, sobretudo, na riqueza de detalhes das novas criaturas mágicas,assim como o 3D é um dos poucos da atualidade que cria uma sensação de profundidade para as cenas, sem prejudicar a fotografia. A trilha de James Newton Howard (“Operação Red Sparrow“) tem um conjunto melhor de composições no primeiro.as Aqui, porém, não decepciona e entrega o tom certo nos principais momentos, além de apresentar bons novos temas, como o de Leta.

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O trabalho de David Yates na direção é um ponto mediano dentro do longa. Velho conhecido da série, tendo dirigido todas as produções desde “Ordem da Fênix”, sua direção não desagrada, mas também tem poucos momentos mais inspirados. Ele não explora com o mesmo esmero as habilidades das criaturas, por exemplo, e isso faz com que a ação seja mais convencional. Ainda boa, na média dos outros filmes, mas não tão chamativa.

O fato de a química entre os protagonistas não se desenrolar no mesmo nível do primeiro, acaba afetando as atuações do quarteto principal. Ainda que seja, em parte, o alívio cômico da história, o tom mais sério deixa de explorar as melhores qualidades apresentadas por Alison Sudol e Dan Fogler anteriormente, com o lado dramático deles não funcionando muito bem. Katherine Waterson é outra que não tem o mesmo destaque, uma vez que Tina passa a não ter o mesmo peso na trama, impedindo um melhor desenvolvimento. O que melhor se sai no quesito é Eddie Redmayne, capaz de carregar a produção, mesmo com o personagem tendo uma personalidade tímida e mais contraída, mas conseguindo entregar tanto no humor quanto no drama.

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Entre os novos nomes no projeto, três merecem destaque. Zoe Kravitz faz um bom trabalho ao mostrar uma Leta Lestrange de múltiplas faces, com um aprofundamento que exige mais dela emocionalmente, resultando em uma personagem não só interessante, mas também crível. Quase como um coadjuvante de luxo, a versão de Dumbledore de Jude Law é sólida em reapresentar não apenas velhas características do querido professor (o jeito amistoso de tratar os alunos ou o modo sabichão de se dirigir aos membros do ministério), como ainda mostrar novas nuances dele, de um jeito mais próprio. Um dos pontos altos no quesito.

E Johnny Depp… O ator é o centro do ponto mais polêmico da obra, pois sua escalação para viver Grindelwald é criticada por boa parte dos fãs desde seu anúncio, em 2016, após ele ter sido acusado de agressão física pela ex-esposa, a atriz Amber Hard. Some-se a desconfiança em relação aos últimos papéis de Depp, criticado ao longo nos anos recentes por interpretar, repetidamente, o mesmo tipo de personagem. Mas aqui, sem margem para colocar seus trejeitos, não compromete. Com um dos arcos mais bem escritos no longa, o roteiro faz com que o personagem só aparece em momentos cruciais, e em todos eles, Depp domina a cena, mesmo que esteja controlado. Na principal delas, que mais poderia exigir do ator, ele mostra imponência e prova ser um antagonista sólido, com potencial para crescer dentro da franquia. Mas, ainda, longe de ser tão marcante quanto Ralph Fieenes como Voldemort.

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Ao final, “Os Crimes de Grindelwald” pode não ter o mesmo brilho do primeiro “Animais Fantásticos” e corre o risco de dividir a opinião dos fãs (novamente, a comparação com “Os Últimos Jedi”), mas cumpre o objetivo de expandir os horizontes da franquia. Com os planos de continuar a explorar o universo bruxo ao redor do mundo, com a possibilidade real do próximo filme se passar, ao menos em parte, no Brasil, J. K. Rowling coloca o público diante de uma nova e inquietante forma de enxergar o mundo mágico. Algumas das decisões tomadas neste capítulo só poderão ser analisadas, de maneira mais justa, a medida em que a história for avançando. E, assim como os demais potterheads, mal posso esperar para as surpresas que o futuro – ou melhor, o passado – me reserva.

Nota: 7/10.

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