As Viúvas

Assinatura dramática e direção estilizada marcam o retorno de Steven McQueen ao cinema

Por Luís Gustavo Fonseca

Ao lado de uma equipe montada e comandada por ele, Harry Rowlings (Liam Nesson, de “O Passageiro“) consegue aplicar um roubo grandioso em uma noite de Chicago: o bando consegue roubar uma quantia de US$ 2 milhões, em um golpe ambicioso dos ladrões. A operação, contudo, termina de forma fatal, após a equipe sofrer uma emboscada e todos acabarem mortos. Como se não bastasse o luto pela perda dos maridos, as viúvas Veronica (Viola Davis, de “Um Limite Entre Nós”), Linda (Michelle Rodriguez, de “Velozes & Furiosos 8”) e Alice (Elizabeth Debicki, de “Paradoxo: Cloverfield”) terão que enfrentar um outro grande problema: o proprietário do dinheiro, Jamal Manning (Bryan Tyree Henry, da série “Atlanta”), quer a quantia perdida de volta. Se em até um mês as mulheres não recuperarem o montante, suas vidas estarão em perigo.

Além de um grande elenco, que ainda inclui Colin Farrell (“Animais Fantásticos e Onde Habitam”), Robert Durvall (“O Juiz”) e Daniel Kaluuya (“Corra!”), um dos grandes chamativos do filme é a direção de Steve McQueen. A produção é o seu primeiro trabalho a frente de um longa desde “12 Anos de Escravidão”, vencedor do Oscar de Melhor Filme de 2014, no qual McQueen, como produtor, levou a estatueta para casa. Na ocasião, ele também foi indicado à categoria de Melhor Diretor.

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Mesmo se tratando de um filme de roubo, o popular heist movie, McQueen não deixa de aplicar na obra a carga dramática característica de seus filmes, como também o caso de “Hunger” e “Shame”. O longa é recheado por cenas em que as personagens, principalmente as protagonistas, estão sozinhas, deslocadas, e isso cria uma atmosfera introspectiva que casa bem com a proposta do espectador ter empatia por elas. O diretor também proporciona algumas tomadas mais longas, pequenos planos sequências, tornando a obra, visualmente, mais dinâmica, estilizada e agradável de ser assistida.

O roteiro é assinado pelo próprio McQueen ao lado da autora Gillian Flynn, responsável por livros como “A Garota Exemplar” e “Objetos Cortantes”. O que no papel parece uma dupla dos sonhos, entretanto, acaba se revelando o ponto em que a produção mais patina. Existe mérito do duo em se preocupar por aprofundar o drama interno das personagens, apresentando seus problemas após as mortes dos maridos e como a vida de cada uma delas, e mesmo suas posturas, foram afetadas pelo episódio. Isso permite que suas motivações e um desenvolvimento pessoal após que elas começam a organizar o plano do próximo assalto seja possível, tornando personagens mais bem trabalhadas.

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Porém, o problema reside na quantidade de histórias e arcos que a trama quer dedicar, o que deixa o texto desfocado e mesmo confuso. Além de prejudicar o ritmo, essa característica faz com que a trama, por vezes, fique entediante. Em paralelo ao enredo das viúvas, a obra ainda dedica um tempo considerável a uma subtrama paralela, entre o conflito político entre Jamal e Jack Mulligan (Farrell). O roteiro até tenta amarrar essas duas histórias, mas não consegue criar uma solução que fuja de coincidências forçadas e que seja orgânica. A quantidade de núcleos acaba sacrificando uma outra característica importante de filmes desse gênero, que é o planejamento do assalto e a arquitetação de cada etapa do plano, com isso ficando em segundo plano. Algo que teria funcionado como um livro ou uma série de TV, mas que fica desajustado em um longa metragem.

No geral, as atuações da obra são boas, apesar que não há nada espetacular. Hoje, Viola Davis é uma das atrizes que tem a melhor imposição e controle de cena na indústria, e isso casa muito bem com a postura de líder da sua personagem, tornando-a muito mais crível. Na maior parte do tempo, a química dela com Michelle Rodriguez e Elizabeth Debicki funciona, com cada uma ajudando a destacar as diferentes personalidades das personagens quando estão juntas. Os homens ficam mais apagados e pouco chamam a atenção, mas a exceção fica para a interpretação intensa e cínica de Daniel Kaluuya como Jatemme Manning, braço direito de Jamal.Tendo trabalhado com McQueen em “12 Anos de Escravidão”, Hans Zimmer (“Blade Runner 2049”) deixa de lado seu tom grandioso e mais estrondoso de lado, e apresenta uma trilha contida, mas que reforça os elementos de suspense e drama.

As Viúvas 03

O retorno de Steve McQueen ao cinema pode não apresentar o mesmo impacto do filme que o levou ao Oscar, mas “As Viúvas” reapresenta a sua boa assinatura dramática. Em um gênero um pouco diferente do que está acostumado, o diretor e roteirista mostra que tem pontos a evoluir, mas que tem pleno potencial para comandar futuras grandes obras em gêneros diversos. Resta a torcida, apenas, para que não sejam necessários outro cinco anos de espera para que ele faça um novo filme.

Nota: 7/10.

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