Aquaman

Apesar de tons distintos, filme do rei dos mares acerta na ação e caracterização do personagem, e coloca a DC de vez no caminho certo”

Por Luís Gustavo Fonseca

Entre os heróis mais populares da DC Comics, talvez poucos tenham uma trajetória na cultura pop tão curiosa e de altos e baixos quanto o Aquaman. Um dos fundadores da Liga da Justiça nos quadrinhos, o personagem ganhou muita popularidade durante os anos 70, quando foi uma das estrelas do desenho “Superamigos”, produzido pela Hanna-Barbera. Entretanto, o estrelato veio com uma fama cômica, uma vez que o herói, capaz de falar com os peixes, era constantemente alvo de piadas, algo que acabou ficando associado a sua imagem.

Isso passou a mudar com as animações mais recentes, como o desenho da Liga dos anos 2000 ou longas animados como “Flashpoint”, além da trajetória do personagem nos quadrinhos, claro. Assim, um lado mais sério do rei de Atlântida foi resgatado. Agora, o seu novo longa solo tentará combinar os dois lados que marcaram o herói.

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“Aquaman” retrata um Arthur Curry (Jason Momoa, de “Liga da Justiça”) dividido entre sua vida na superfície e o chamado dos oceanos para que ele, finalmente, assuma seu posto em Atlântida. Se, até então, ele evitava o contato com sua origem atlante e apenas timidamente começava a atuar como um herói, após os eventos de “Liga”, as alternativas de Arthur se esgotam quando seu meio-irmão, o Rei Orm (Patrick Wilson, da série “Fargo”) está prestes a unir os reinos dos mares e, assim, declarar guerra a superfície. A princesa Mera (Amber Heard, de “A Garota Dinamarquesa“) apela para que ele vá até o reino subaquático e assuma seu lugar de direito como rei de Atlântida, evitando assim o conflito. Para destronar Orm, todavia, a dupla precisará reencontrar o tridente perdido do Rei Atlan, uma vez que essa será a única forma dos atlantes e outros povos reconhecerem a legitimidade do mestiço Arthur.

Assim como o herói, a trajetória do universo DC nos cinemas, desde sua inauguração com “O Homem de Aço” em 2013, é marcada por altos e baixos. O ano de 2017 trouxe esperança para os fãs da editora com a força de “Mulher-Maravilha” e, mesmo que “Liga da Justiça” tenha dividido as opiniões e passado a impressão que poderia ter sido melhor, o longa concretizou um ano de recuperação do estúdio. Por isso, “Aquaman” chega aos cinemas com a responsabilidade não somente de manter essa revitalização, mas também em aumentar a credibilidade do público nos longas da editora.

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Encarregado para esta missão ficou o diretor James Wan, cineasta que alcançou o estrelato nesta década graças aos longas produzidos para o gênero de terror, em especial a franquia “Invocação do Mal”, no qual dirigiu dois filmes. Wan já havia mostrado sua perícia em lidar com uma obra de grande orçamento, repleta de efeitos especiais, em “Velozes e Furiosos 7”, e aqui, apresenta outro grande trabalho.

A jornada de Aquaman é visualmente prazerosa de ser assistida, com o diretor fazendo com que o posicionamento de câmera sempre proporciona cenas pouco confusas, mais limpas (seja em planos fechados ou abertos) e que realçam, também, as belezas do fundo do mar – mérito também de Don Burgess, diretor de fotografia, que acerta ao destacar as cores dos diversos ambientes. A ação, focada sobretudo nas lutas corpo-a-corpo e em locais fechados, são outro ponto certeiro, na qual Wan exibe um dinamismo frenético, graças à câmera que gira em torno do conflito, mas sempre em planos mais abertos e que permitam entender o que se passe em cena. Esses momentos ficam ainda melhores quando ele conduz pequenos planos sequências dos duelos, deixando-os ainda mais imersivos e chamativos. Nas grandes batalhas, com mais elementos em tela, o esmero não é o mesmo, mas ainda está dentro do padrão de filmes como este.

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James Wan ao lado de Amber Heard, Jason Momoa e Willem Dafoe

O roteiro assinado por David Leslie Johnson-McGoldrick (“Invocação do Mal 2”) e Will Beall (“Caça aos Gângsteres”) é competente, apesar de, por vezes, ser cansativo e apresentar dois tons distintos. O primeiro arco foca em estabelecer a origem do herói, desde o envolvimento amoroso entre seus pais, Tom (Temuera Morrison, de “Moana“) e Atlanna (Nicole Kidman, de “O Estranho que Nós Amamos”), a atuação de Aquaman como um “herói misterioso” da superfície e a política de Atlante. A ameaça representada por Orm tem a sua seriedade, assim como seu discurso, bastante envolvente pelo seu caráter ambiental: os humanos passaram os últimos séculos poluindo os mares, atolando-o de lixo, causando derramamento de óleo e promovendo a pesca predatória de diversas espécies. Diante disto, nada mais justo do que os atlantes revidarem.

Já em seu segundo arco, o longa muda de tom e abraça de vez o lado quadrinho do personagem, deixando a ameaça de lado e focando mais na aventura de Aquaman e Mera em busca do tridente. Essa mudança causa um estranhamento a princípio, uma sensação de inconsistência dentro da obra, mas esse novo lado, mais vívido, leve e fantástico, é muito bem vindo na trama. O texto dedica tempo em explorar a mitologia de Atlântida e seus diferentes reinos, e por mais que a jornada da dupla seja previsível e talvez ocupe um tempo de tela maior do que o ideal, prejudicando o ritmo, ela é importante para desenvolver a relação entre eles.

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O desenvolvimento de Arthur em todo enredo, aliás, é uma das qualidades do roteiro, destacando sua humanidade e as mudanças que a jornada causa nele. Em um momento, é destacado que Atlântida “não precisa de um rei, mas de um herói”. E a trama faz por onde justificar porque ele é merecedor disso. O roteiro raramente sofre de um problema crônico em outras produções, que é da edição e da dificuldade de combinar os diferentes núcleos da história. De negativo, fica o fato de que Orm poderia ter sido melhor explorado, uma vez que ele tem um ponto de vista tão forte sobre questões importantes, mas o vilão acaba sendo deixado de lado na segunda parte do filme.

Uma vez que o enredo foca tanto em Mera e Arthur, era necessário que a química entre Heard e Momoa funcionasse. E felizmente, isso acontece, principalmente quando o filme se permite ser mais cômico. Isso dá mais liberdade para atuação deles, e beneficia sobretudo o herói, que consegue entregar muito bem a parte humorística, mas não fica devendo quando é exigido dramaticamente. Heard também tem a oportunidade de mostrar diferentes lados da personalidade de Mera, além de ter seus momentos para brilhar nas cenas de ação. Podem não ser atuações brilhantes, mas que se adequam muito bem a proposta do filme, fazendo-o funcionar.

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Isso se estende para o elenco de apoio, que tem trabalhos satisfatórios, mesmo nos mais coadjuvantes, como é o caso de Dolph Lundgren (“Blackwater“) como o pai de Meera, Rei Nerus, e Willem Dafoe (“Projeto Flórida”) como Vulko, instrutor de Arthur. No final das contas, o Orm de Patrick Wilson e o Arraia Negra de Yahya Abdul-Mateen II (“O Rei do Show”) podem ser vilões mais bidimensionais do que se esperava a princípio, mas ambos se esforçam e entregam antagonistas que conferem peso para a história, sendo um bom acréscimo para a produção.

A projeção em IMAX é responsável por destacar, ainda mais, a beleza dos cenários e dos diferentes seres subaquáticos, sendo que a ausência do 3D beneficia ao não escurecer essas cenas. No geral, o design de produção e o figurino da obra é um acerto a parte, entregando um visual, sobretudo das vestimentas dos personagens (sobretudo do Aquaman, Arraia Negra e do Mestre dos Oceanos), crível e fantástico, e que dá mais camadas ao mundo explorado pela obra.

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Os efeitos visuais, com destaque nas cenas de ação, estão dentro do (alto) padrão de qualidade da indústria, mas existem alguns momentos que ela não fica tão bem encaixada, com os atores ficando deslocados do restante do cenário. A trilha de Rupert Gregson-Williams (“Mulher-Maravilha”) se faz presente e ajuda a conduzir a obra, com ela se adaptando aos diferentes momentos presentes na história, mas sempre reforçando ao tema atrelado ao personagem.

Por fim, “Aquaman” concretiza o novo rumo tomado pela DC nos cinemas. Menos melancólico e mais fantástico, a produção do herói recupera o lado “quadrinho” desse tipo de produção do estúdio, e mostra que é possível, sim, haver uma combinação entre a seriedade inicial deste universo com um tom mais cômico e colorido. Além disso, apresenta para o público um novo olhar sobre o herói, na qual ele consegue ser descolado, badass e divertido, ao mesmo tempo. Uma versão que tem tudo para dominar os cinemas nos próximos anos.

Nota: 7,5/10

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