Homem-Aranha no Aranhaverso

Com um visual único e atraente, animação focada em Miles Morales é uma verdadeira carta de amor a tudo o que o Homem-Aranha representa

Por Luís Gustavo Fonseca

Mais de 50 anos após a sua criação, não é novidade para ninguém a extrema popularidade de Peter Parker e do Homem-Aranha, um dos principais personagens já feitos pela Marvel. É uma fama que ele desfruta dos desenhos, filmes e jogos, a ponto de todos associarem o herói ao seu alter-ego fotógrafo. O que boa parte do grande público não conhece, contudo, é uma outra versão do Cabeça de Teia: Miles Morales, o Homem-Aranha do universo Ultimate dos quadrinhos. Criado por Brian Michael Bendis no início dos anos 2000, Miles é uma versão atualizada do personagem, apresentando questões atuais e diferentes para um jovem herói, mas sem deixar de lado o espírito que consagrou o Amigão da Vizinhança. Agora, “Homem-Aranha no Aranhaverso” chega para apresentar Miles para o grande público, colocando-o em um papel de destaque que ele não havia conquistado, até então, nos cinemas.

No longa, Miles acabou de entrar em um novo colégio, e está enfrentando alguns dos dilemas comuns de sua idade: fazer amigos na nova escola, tirar boas notas, agradar os pais, impressionar a colega de sala e seguir suas paixões artísticas. A relação com o pai, o policial Jefferson, atravessa um momento delicado, uma vez que ele pressiona para que Miles se saia bem na escola, mas dá pouca liberdade para o garoto conversar com ele sobre o que ele sente ou pensa.

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Esse afastamento aproxima Miles de seu tio, Aaron Davis, com quem ele se sente mais à vontade para ser quem realmente é. Em um de seus passeios com o tio, o jovem acaba sendo picado por uma aranha radioativa. Isso o leva para um caminho que o público – e o próprio Miles – conhece bem: suas mãos começam a grudar nos objetos, ele consegue fazer acrobacias mirabolantes e escalar paredes. Miles passa a ter as habilidades do Homem-Aranha, a exemplo do Peter Parker de sua realidade. Dessa forma, o episódio será o pontapé inicial que o levará a conhecer inúmeros vilões e diversas versões do herói aracnídeo, além de conduzi-lo em uma jornada de auto descoberta e evolução.

É impossível falar de “Homem-Aranha no Aranhaverso” sem destacar, primeiramente, um de seus aspectos mais chamativos: o visual. Indo na contramão de outras grandes animações ocidentais atuais, a produção investe em uma inovativa, singular e brilhante técnica, que mistura animação 3D e 2D de uma forma extremamente fluida e aprazível. A fotografia aposta numa variedade de cores e tonalidades que, a exemplo de “Os Incríveis 2”, acrescentam camadas ao universo do filme, tornando-o, além de visualmente mais atraente, também mais imersivo.

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A proposta de simular um traço que remete ao das HQs, com os pontinhos característicos, momentos com a divisão em quadros e os clássicos balões de fala e pensamento, é outro diferencial, e ajudam a deixar a obra ainda mais autêntica, além de colaborar com o andamento da narrativa. A ação também consegue ser criativa, bem executada e empolgante, criando sequências e situações que uma versão live-action não permitem, expandindo o que o herói é capaz de fazer.

O roteiro, assinado por Phil Lord (“Uma Aventura LEGO”) e Rodney Rothman (um dos três diretores da obra), também é outro ponto alto da produção. Para aqueles que não conhecem Miles, os primeiros 30 minutos são precisos em apresentar o personagem, tendo maior mérito em construir isso de forma a deixá-lo bastante carismático e fácil de se relacionar. As dúvidas, receios e aspirações de Miles são comuns, palpáveis e verdadeiras, de forma que o espectador consegue se ver no lugar dele. Isso é uma maneira de resgatar aspectos que fizeram o público gostar do Homem-Aranha na década de 60, com essa proximidade entre o herói e o leitor sendo um dos principais fatores de sua popularidade e da admiração conquistada em diferentes gerações.

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O filme é recheado de frames estonteantes como esse. Visualmente, impecável.

Além da apresentação de Miles, o roteiro – e a edição – são certeiros em desenvolver os demais pontos da narrativa, dando um bom ritmo ao longa, que não cansa no decorrer de suas quase 2h, uma duração incomum para uma animação. A grande ameaça da trama é o plano do Rei do Crime que, ao desenvolver um acelerador de partículas com a ajuda de outros vilões, tem como objetivo trazer para esta realidade uma outra versão de sua esposa, Vanessa, e seu filho. Graças a interferência do Homem-Aranha e de Miles, o plano consegue ser adiado, mas a ponte criada enquanto o acelerador estava ligado traz para este universo diferentes versões do Cabeça de Teia.

Os espectadores podem não conhecer essas outras versões do herói: além de um outro Peter Parker, há a jovem Peni Parker, capaz de controlar um mecha aranha; Gwen-Aranha, uma reinvenção de Gwen Stacy que surgiu nos quadrinhos nos últimos anos; o cartunesco Porco-Aranha; e o Homem-Aranha Noir, uma versão soturna e dos anos 30 do personagem. Cada uma dessas versões tem o tempo de tela para ser devidamente apresentada, com as suas singularidades destacadas. A presença delas no enredo não é para apenas criar uma cômica salada de frutas envolvendo o herói: cada uma oferece um conselho e uma perspectiva distinta do que é ser o Homem-Aranha para Miles, a partir de suas experiências, e isso é importante para que ele possa percorrer o caminho para se tornar, também, um herói. É a partir das influências das diferentes versões que Miles compreende a máxima atrelada ao personagem: com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.

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O texto consegue mesclar o humor e o drama de maneira muito bem equilibrada, e isso resultado em algo leve e divertido, ao mesmo tempo que concede gravidade e peso em momentos cruciais. As piadas acontecem com naturalidade e reforçam uma das principais características do herói, sendo que as interações entre os diversos tipos oferecem diferentes possibilidades de explorar esse humor. Aqui, o visual ajuda a acrescentar algumas sacadas visuais inteligentes, seja com o estilo anime nas expressões de Peni Parker, ou as ações que lembram cartoons de Porco-Aranha. Um quesito infalível no longa.

Se a obra é dedicada a apresentar e desenvolver Miles, mostrando o que ele tem de semelhante e de diferente em relação a Peter Parker, é necessário destacar a própria retratação que Peter (o da dimensão diferente de Miles) tem dentro da produção, em outro trabalho exímio do roteiro. O personagem foi exaustivamente explorado desde 2002, com três versões diferentes aparecendo nos live-actions nesse meio tempo. Aqui, sua abordagem é distinta de todas elas. O espectador conhece um Peter mais velho, cansado de apanhar (apesar de nunca desistir), um tanto desiludido e conformado, que leva uma vida quase medíocre.

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A ideia de trazer um Peter na casa dos 40 anos é uma forma de criar uma ligação mais próxima com o público mais velho, que se encantou com o personagem anos atrás, mas que hoje enfrenta questões e uma realidade diferente. O filme até deixa a entender que ele possa ser uma versão envelhecida do Parker da trilogia de Sam Raimi, com alguns dos momentos icônicos dos longas sendo referenciados na trama.

Nesta abordagem, os problemas de meia idade o atormentam, mas ele compreende a importância de suas ações e da necessidade de continuar fazendo seus atos heroicos, mesmo sem a empolgação de outrora. A experiência ganha com anos como Homem-Aranha o tornam o mentor ideal para Miles. Contudo, justamente por ser humano e sujeito a falhas – um dos pilares da caracterização do personagem -, ele não é perfeito, havendo espaço para que Miles também possa ajudá-lo a evoluir e se tornar alguém melhor. Há, inclusive, um interessante contraste entre esse Peter e o da realidade de Miles, que é mais novo, está em melhor forma e é loiro e de olhos azuis (certamente, uma brincadeira com o ator Chris Pine, seu dublador). Tudo que o Peter mais velho gostaria que ainda fosse sua vida.

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O ponto que, talvez, seja o mais frágil do roteiro é o trabalho com os vilões, uma vez que a história, sabiamente, opta por passar tempo com os mocinhos. Isso não é um aspecto ruim, pelo contrário: a obsessão do Rei do Crime em retomar a ter sua família o aprofunda e o torna mais ameaçador, a partir do momento que ele fará de tudo para alcançar seu objetivo. O vilão mais importante para a trama, porém, acaba sendo o Gatuno, uma vez que sua ligação com o Miles será decisiva para marcar a sua jornada de herói.

Para fechar, é necessário destacar o bom trabalho da dublagem americana. Shameik Moore (da série “To Get Down”) oferece uma caracterização certeira e apropriada para Miles, expressando muito bem as diversas emoções sentidas pelo protagonistas. Jake Johnson (“Jurassic Park: Reino Ameaçado”) proporciona uma voz sarcástica, mas ainda amiga, a Peter Parker, enquanto Hailee Steinfeld (“Bumblebee”) também tem destaque ao caracterizar uma Gwen divertidamente debochada, mas cheia de confiança – e cada fala de Nicolas Cage (“Mandy”) como o Homem-Aranha Noir é puro ouro. A trilha de Daniel Pemberton (“Oito Mulheres e Um Segredo“) é o ponto que coroa a obra, sendo chamativa e embalando a narrativa em seus diversos aspectos, sobretudo com os temas de Miles e o do Gatuno.

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Em um ano em que Pantera Negra” fez um sucesso tão grande e pôs em evidência a necessidade de haver diversidade de representação nas telonas, contando histórias por outros pontos de vista, sobretudo por grupos que por anos foram marginalizados e não tinham voz própria, “Homem-Aranha no Aranhaverso” chega para deixar essa mensagem ainda mais clara. O principal ponto do texto, destacado em seu desfecho, é “qualquer um pode vestir a máscara”, não importando se é um homem branco, um jovem negro ou uma garota. Se o Amigão da Vizinhança é o herói que ele é, é por ele ser acessível, enfrentando problemas e questões que todos, de alguma forma, conseguem se relacionar, não importando quem seja. A animação é uma verdadeira carta de amor ao personagem, resgatando e resumindo todos os aspectos que o tornam tão fantástico, no que, não seria loucura dizer, é a sua melhor representação no cinema até hoje. Para aqueles que querem entender todo o fascínio existente pelo Cabeça de Teia, “Homem-Aranha no Aranhaverso” é a pedida perfeita para compreender esse fenômeno.

Nota: 10/10.

P.S.: Não saia do cinema até ver uma das melhores cenas pós-créditos já colocadas em um longa de herói!

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3 comentários sobre “Homem-Aranha no Aranhaverso

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