A Favorita

“Comédia política dirigida por Yorgos Lanthimos aposta em trinca de atuações fortes na corrida pelo Oscar

Por Luís Gustavo Fonseca

Nos últimos anos, o diretor Yorgos Lanthimos conquistou certa notoriedade pelos seus trabalhos mais recentes, sendo indicado, inclusive, a categoria de Melhor Roteiro Original por “O Lagosta”, em 2017. As produções – “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” – chamaram a atenção não apenas por apresentarem ideias que são, no mínimo, peculiares, mas também pela forma inquietante e perturbadora pela qual Lanthimos as desenvolve, criando obras chamativas e imersivas. Agora, ele aposta em um trabalho menos radical e subversivo, o que pode não ser tão atrativo para aqueles que gostaram, justamente, das temáticas mais ousadas de sua filmografia recente. “A Favorita” é, definitivamente, um drama de época mais dentro da caixa do que estes últimos longas, mas não menos interessante.

Ambientada na Inglaterra do século XVIII, a trama acompanha a Rainha Anne (Olivia Colman, de “Assassinato no Expresso do Oriente“), soberana inglesa que enfrenta um momento político delicado. Em guerra com os franceses e pressionada pela oposição do parlamento inglês, além de sofrer fortes dores na perna devido a doença de gota, ela conta com a ajuda de sua braço direito, Lady Sarah (Rachel Weisz, de “Desobediência“), para gerir o país. Como representante da Rainha, Lady Sarah detém extremo poder dentro da corte, comandando o país com mãos de ferro. Entretanto, sua posição de conselheira – e também de amante – da Alteza inglesa é ameaçada com a chegada de sua prima, Abigail (Emma Stone, de “La La Land”), uma serviçal que rapidamente cai nas graças da Rainha e, com isso, vai conquistando influência dentro do palácio, levando o trio a uma intensa e velada disputa política e amorosa.

Na semana em que estreia no Brasil, o longa também conseguiu 10 indicações ao Oscar, incluindo a de Melhor Filme. Para justificar sua presença entre os concorrentes do principal prêmio, a produção foi reconhecida por aquele que é o seu aspecto mais chamativo: as atuações do trio protagonista. Apostando em um triângulo amoroso totalmente feminino, a obra consegue trabalhar três mulheres muito diferentes e, assim, três atuações que mostram características distintas entre elas. Calculista, inteligente e firme, Weisz consegue dominar as cenas em que está presente, fazendo com que Lady Sarah se imponha diante dos demais personagens em tela, conferindo uma forte presença para sua atuação.

Assim como ela, Emma Stone também foi agraciada com uma indicação na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Sua personagem, Abigail, tem mais liberdade para explorar o lado satírico da tramma, e a atriz aproveita isso para mostrar sua versatilidade no que diz respeito aos momentos dramáticos quanto nos mais cômicos. Olivia Colman, indicada ao prêmio de Melhor Atriz, é, por fim, o elo emocional da obra, conseguindo ser amável e dura, frágil e poderosa, em uma única cena. É o meio ponto entre a dualidade de Weisz e Stone e, uma vez que a química entre o trio funciona perfeitamente, tem-se três das principais atuações do último ano.

O roteiro, assinado pela estreante Deborah Davis e Tony McNamara (da série “Puberty Blues“), também tem méritos na forma como as atuações têm impacto no longa. A política tem a sua importância dentro da história, mas o texto faz com que as discussões sobre o futuro da Inglaterra e as brigas de poder dentro da corte não sejam maçantes. É por meio dessas intrigas, inclusive, que o roteiro confere momentos de tensão aos diálogos, fazendo com que as decisões dos personagens tenham maior peso. Por outro lado, o enredo equilibra bem este lado com sua proposta cômica e satírica. Seja em frases atravessadas, respostas inusitadas ou pelo deboche, mostrando, por exemplo, uma excêntrica corrida de patos em um dos saguões do palácio, a obra prova seu poder de divertir, mesmo que de uma forma mais inquietante.

O texto também acerta na jornada das personagens principais, criando um bom desenvolvimento no arco de cada uma delas, mostrando como a evolução de cada uma delas afeta suas respectivas relações. Esse bom trabalho as tornam não somente personagens mais profundas e humanas, como também mais interessantes. Por outro lado, o roteiro acaba pecando no ritmo, principalmente em seu ato final, no qual fica mais arrastado do que o restante do filme, deixando as duas horas de projeção mais cansativas.

Yorgos Lanthimos conseguiu uma indicação à categoria de Melhor Diretor. Os seus planos, mais abertos, ajudam a reforçar a sensação de pequenez e solidão que as personagens vivem em meio aos grandes ambientes dentro do palácio real. Esse posicionamento também serve para enfatizar a opulência e excentricidade da corte, destacada pela imensidão dos saguões, quartos e corredores do lugar. A câmera, muitas vezes, encontra-se estática, mas Lanthimos faz com que sua filmagem não seja monótona pela maneira como ela se movimenta no ambiente. Ele consegue essa agilidade seja girando-a em 90º (algo que lembra muito a estética de Wes Anderson) ou pelo travelling, acompanhando as personagens.

A fotografia de Robbie Ryan, também indicada ao Oscar, configura outro ponto positivo, com o trabalho da iluminação dos ambientes, sobretudo no uso da luz de velas nas cenas noturnas, sendo o grande destaque do quesito. A trilha sonora proporciona a mesma sensação de inquietação e desconforto percebida em seus últimos trabalhos, o que colabora para aumentar a tensão existente na produção.

Com “A Favorita”, Lanthimos proporciona um filme mais tradicional e “comportado”, mas que ainda preserva algumas de suas características e configura como outro bom trabalho de sua filmografia recente. Reconhecido pela Academia, o longa é o líder no número de indicações na edição deste ano, ao lado de “Roma”, e além de algumas das categorias técnicas, tem chances reais de vitória na parte das atuações. Uma consagração que cairia bem para qualquer uma das três protagonistas.

Nota: 8/10.

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