Alita: Anjo de Combate

Roteiro perde a chance de aprofundar personagens e universo, em obra visualmente chamativa”

Por Luís Gustavo Fonseca

Assim como a adaptação dos jogos de videogame, que até hoje encontram dificuldade em emplacar, nas telonas, o mesmo sucesso conquistado nos consoles, as adaptações de mangás e animes produzidas por Hollywood também não conseguem ter sucesso de público e crítica. Exemplos recentes incluem “Death Note” e “Ghost in the Shell”. Mas parece que a recepção ainda ainda não desiludiu Hollywood de continuar tentando, já que projetos futuros incluem uma série de “Cowboy Bebop” para a Netflix, um filme de “Kimi no na wa” e uma eterna especulação sobre um longa de “Akira”. Dessa vez, quem tenta a sorte no meio é “Alita: Anjo de Combate”, baseado no mangá de Yukito Kishiro.

Na trama, o Dr. Dyson Ido (Christopher Waltz) encontra, em um ferro-velho, o restante de uma ciborgue, que ele batiza de Alita (Rosa Salazar). Ele constrói um novo corpo para ela, mas Alita não consegue lembrar de quem ela era ou o que fazia antes de ser resgatada por Ido. Ao decidir tornar-se uma caçadora de recompensas, Alita dará início a uma caminhada na qual irá procurar as respostas para o seu passado, ao mesmo tempo que se esforça para entender as características deste novo mundo em que se encontra, seja pela suas belezas ou seus perigos.

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Um dos principais chamativos da obra é a presença de James Cameron (“Avatar”) atuando como roteirista e de produtor do longa. O projeto é um antigo sonho do cineasta, que comprou os direitos para a adaptação ainda na década de 90, e sua mão pode ser sentida, principalmente, naquilo que o público mais associa a Cameron hoje: o visual. No que diz respeito aos efeitos especiais e da integração em cena entre os personagens humanos e os feitos por captura de movimentos, a produção consegue um resultado satisfatório, com uma estética que o telespectador se acostuma no decorrer da trama.

Um ponto importante desse aspecto é, justamente, sua protagonista. Alvo de grande discussão desde o lançamento do primeiro trailer, os olhos de Alita – uma homenagem a uma caracterização comum dos traços dos animes – causam um certo estranhamento a princípio, mas não é algo que incomoda ou distrai na hora de assistir à obra. As tomadas que são somente ela podem causar a impressão de você estar assistindo a uma cinemática muito bem definida de um videogame. Contudo, em planos mais abertos e na presença de personagens live-action, ela, assim como outros ciborgues (todos, visualmente, muito chamativos), acabam se integrando de forma fluída e natural ao ambiente. O 3D tem um aprofundamento quase nulo e é dispensável, sendo o aspecto visual mais fraco da produção.

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A direção de Robert Rodriguez (“Sin City: A Dama Fatal”) apresenta um trabalho eficiente, sem grandes riscos e que segue o caminho mais seguro. Dada a riqueza no visual do longa, ele consegue proporcionar cenas de ação dinâmicas, que não deixam o espectador perdido nos momentos de luta ou na agitada disputa de Motorball, esporte do universo que lembra uma mistura interessante entre corrida e basquete, mas que pode ser mortal. Apesar dessa condução correta, a direção de Rodriguez não deixa de passar a impressão  da ausência de uma assinatura própria mais forte, de maior destaque. É quase como se o filme fosse feito no piloto automático, o que acaba tornando-o genérico e pouco marcante.

O roteiro assinado por Cameron também colabora para esse sentimento, de que a trama poderia construir algo mais marcante. O plano de fundo do enredo, que dão pistas e informações básicas sobre aquela sociedade – como ela se formou, suas características, as diversas nuances e conflitos dentro dela – apontam para um universo que é muito rico, mas que não é devidamente explorado. O texto opta por focar na procura de Alita em descobrir quem ela é, e como ela deve se encaixar neste mundo, mas é um arco que passa a sensação de incompletude, apesar de alguns bons acertos, como no desenvolvimento da personalidade dela.

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Isso se deve, em parte, pela ausência de um antagonismo tão bem trabalhado quanto a personagem, já que a figura que parece estar tramando contra Alita, Nova, é guardada em torno de mistérios e tem pouco tempo de tela. A relação entre Alita e Hugo (Keeam Johnson), uma forma de torná-la mais humana, não consegue ser nada além de genérica, sendo uma subtrama dispensável. Sua presença mais prejudica do que ajudar a desenvolver os personagens, e isso acaba por atrapalhar o ritmo da produção.

Outro ponto em que o filme faz o básico, mas poderia entregar mais, são as atuações. A obra conta com nomes de peso, tais como Christopher Waltz (“Pequena Grande Vida”), Jennifer Connelly (“Homem-Aranha de Volta ao Lar”) e Mahershala Ali (“Homem-Aranha no Aranhaverso”), mas nenhum deles mostra um trabalho tão marcante – muito em parte, porque o roteiro também não os aprofunda. Talvez por isso, o trabalho Rosa Salazar (“Bird Box“) é o mais agradável e destacável, com ela conseguindo passar muito das principais emoções da personagem, mesmo que os efeitos especiais estejam bastante presentes em seu rosto.

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Apesar da boa protagonista e de efeitos visuais chamativos, “Alita: Anjo de Combate” falha em construir um enredo mais empolgante e que saiba desenvolver tanto seu universo quanto seus personagens. Ainda não foi dessa vez que Hollywood acertou a mão nesse tipo de adaptação.

Nota: 5,5/10.

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Um comentário sobre “Alita: Anjo de Combate

  1. Poxa, agora fiquei um pouco decepcionada HAHAHAHAHAHA, tava doida pra assistir esse filme e com expectativas bem altas… acho q vou só segurar meus cavalos e ir assistir de qualquer jeito xDDD parabéns pela critica!

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