Nós

“Com atuação fenomenal de Lupita Nyong’o, novo e imersivo terror de Jordan Peele mostra o potencial que o diretor tem para mostrar nos próximos anos”

Por Luís Gustavo Fonseca

Há dois anos, o mundo ainda conhecia Jordan Peele, sobretudo, como parte do duo de comédia “Key & Peele”. Ao lado do ator Keegan-Michael Key, Peele construiu uma carreira de humor centrado em sketches bem humorados, mas também ácidos e cutucando situações sociais atuais. Dado esse background que ele pegou o público de surpresa com “Corra!”, o primeiro longa-metragem dirigido e roteirizado por ele. A sátira de terror tornou-se um sucesso de público e crítica, com o filme sendo indicado a Oscar e Peele recebendo o prêmio de Melhor Roteiro Original do último ano. Agora, com “Nós”, Peele está de volta ao gênero de terror, indicando que ele tem um futuro brilhante no ramo pela frente.

Na trama, a família de Adelaide Wilson (Lupita Nyong’o) decide passar uns dias em uma casa de verão, para aproveitar as férias próximo a praia de Santa Cruz, na Califórnia. O que seria um momento para descontrair e passar próximo da família acaba se tornando em um pesadelo, quando misteriosos e aterrorizantes doppelgängers dos protagonistas surgem para atormentá-los, pondo suas vidas em risco. A medida que os Wilson lutam por sua sobrevivência, mais se sabe sobre as motivações das cópias e a ligação que o ataque tem com a infância de Adelaide.

Produtor, diretor e roteirista do longa, Peele é um dos principais chamarizes da obra, entregando um trabalho tão impactante quanto o de “Corra!”. A condução da história é eficiente, apresentando, sem a necessidade de grandes diálogos, as principais características dos protagonistas e como que a relação entre eles funciona. A empatia pela família por parte do espectador é conquistada rapidamente, o que colabora para um dos principais pontos do filme: sua imersão.

A atmosfera de terror, suspense e dúvidas é construída logo nos primeiros minutos, e quanto mais o texto fica rodeado por mistérios, mais Peele mostra sua competência em desenvolver e resolver a trama. Essa imersão tem a colaboração, também, de seu trabalho na direção. O uso escasso de luzes, com uma fotografia que valoriza as silhuetas dos antagonistas da obra, e que destacam suas vestes vermelhas, são uma das técnicas utilizadas por Peele para isso. Apesar dos ambientes escurecidos, os planos são limpos e compreensíveis, não comprometendo o entendimento do que acontece em cena. A fluidez na movimentação da câmera em locais fechados, evitando assim cortes rápidos e secos, é outro aspecto que ajuda a deixar a obra ainda mais imersiva.

Apesar dessa ambientação sufocante, o roteiro ainda encontra espaço para pontuar a obra com momentos cômicos, o que quebra um pouco da tensão e torna a obra ainda mais peculiar – o que pode ser positivo ou negativo, dependendo do gosto de cada um. As duas horas de projeção contam com um ritmo dinâmico, que alterna de forma equilibrado entre o frenético e o cadenciado, sem nunca ser desinteressante ou atrapalhado. Assim como “Corra!”, Peele se permite conceder à trama algo mais fora da realidade, com um quê fantasioso. A opção me pegou de surpresa em “Corra!” e não me agradou por completo, algo que não acontece aqui. O desenvolvimento do enredo, assim como sua resolução, são bem articulados por Peele, conferindo ao filme uma crescente satisfatória e envolvente.

A edição talvez seja o ponto mais aquém da obra. Não, necessariamente, por atrapalhar o ritmo do longa, mas por tornar mais explícitas algumas sutilezas do roteiro que poderiam ser melhores apreciadas se o espectador as percebesse como um detalhe. Em outro ponto, felizmente, há acertos: a trilha de Michael Abels (também de “Corra!”), outro elemento que torna a experiência ainda mais imersiva e envolvente, potencializando o terror existente.

Outro grande ponto do marketing da produção foi a atriz Lupita Nyong’o. Desde que conquistou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, por “12 Anos de Escravidão”, a atriz teve a chance de participar de grandes produções como “Star Wars: O Despertar da Força”, “Mogli: O Menino Lobo” e “Pantera Negra”. Mas é em “Nós” que ela apresenta um trabalho fantástico, que pode ser a melhor atuação de sua carreira. Tanto como Adelaide quanto sua misteriosa doppelgänger, Lupita domina a cena e carrega o protagonismo sem dificuldades, tendo uma grande performance em dois papéis distintos. Ela passeia por uma variação de emoções, como medo, tensão, alegria, ferocidade e determinação. Um fascínio em cena, que tem potencial para, assim como Daniel Kaluuya no último ano, conseguir uma indicação ao Oscar.

O restante do elenco também conta com bons trabalhos, caso dos demais membros da família. Os jovens Shahadi Wright Joseph e Evan Alex dão o amparo emocional para a personagem de Lupita (o que faz toda a diferença), enquanto Winston Duke (também de “Pantera Negra”) é o principal alívio cômico. Elizabeth Moss (da série “The Handsmaid’s Tale”) tem um tempo limitado em tela, mas sua participação não deixa de ser impactante. Além de Lupita, o outro trabalho que certamente ficará na mente dos telespectadores é da estreante Madison Curry. Quase sem nenhuma linha de diálogo, ela consegue ter muita presença de cena, apenas com o olhar, e rouba as cenas em que está presente.

Nós 05

Dessa forma, “Nós” é um novo marco do gênero de terror moderno, que comprova as habilidades e a genialidade que Jordan Peele tem ao trabalhar o gênero. Mesmo que ele vá para outras áreas (o que não seria menos interessante de ver), o longa é a prova que o ascensão de Peele como diretor e roteirista é uma das melhores coisas que aconteceu no cinema nesta década, sendo o mesmo caso de cineastas como Denis Villeneuve e Damien Chazelle. O espectador, claro, só tem a agradecer.

Nota: 8,5/10.

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