Shazam

Em um filme sobre família, Zachary Levi rouba a cena como um dos heróis mais divertidos da DC

Por Luís Gustavo Fonseca

Billy Batson (Asher Angel) é um garoto de 14 anos que se perdeu da mãe quando criança, passando a morar em casas de acolhimento – das quais ele sempre arruma uma forma de fugir. Enquanto ainda procura incessantemente por sua mãe biológica, Billy é adotado por um novo lar de acolhimento, e deve se ajustar a uma nova família, com irmãos de personalidades distintas.

O período de adaptação não é algo que ele enfrenta com facilidade, mas sua vida é transformada quando um dia, ele é encontrado por um misterioso e velho mago (Djimon Hounsou), que procura alguém de coração puro para transferir antigos poderes para ele. Poderes que o transformam em um adulto lhe confere a capacidade de voar, ter superforça e supervelocidade, e que são ativados com o dizer de apenas uma palavra: “Shazam!”. Com essas novas habilidades, Billy terá que compreender o que significa ser um herói – e o que significa ser um herói quando ainda se é uma criança.

A nova produção da DC vem, abertamente, com um abordagem bem diferente do que os primeiros filmes do universo compartilhado do estúdio, como “Homem de Aço” e “Batman vs Superman”. Esqueça aquela visão mais realista e séria, pois “Shazam” chega apostando no clima de Sessão da Tarde para conquistar o público. A comparação não é depreciativa, pelo contrário: divertido e com um tom que mistura a aventura ao fantástico, a obra poderia fazer parte do panteão de filmes que dominaram à TV nas tardes dos brasileiros. Algo que remete aos longas de John Hughes na década de 80, ou “Quero Ser Grande” e “Um Herói de Brinquedo”.

SHAZAM! (L-r) JACK DYLAN GRAZER as Freddy Freeman and ZACHARY LEVI as Shazam

Trabalhar essa visão mais divertida e leve pode ser uma novidade para o diretor David F. Sandberg, que tem como referência títulos de terror como “Quando as Luzes se Apagam” e “Annabelle 2: A Criação do Mal”. Uma tarefa que ele consegue desempenhar bem, uma vez que ele compreende que a produção se trata de uma criança que, subitamente, têm poderes equiparáveis ao do Superman. Dessa forma, escolhas como preferir uma fotografia que valorize as cores, ou evidenciar o quão esdrúxulo o uniforme do herói é, são positivas. Tanto a direção quanto o roteiro se preocupam em colocar o herói sempre como o foco e fio condutor da narrativa, e isso é fundamental para que o filme consiga cumprir a proposta de ser algo mais aventureiro.

Não é uma jornada livre de problemas. Uma delas é o trabalho sobre o vilão, Thaddeus Sivana (Mark Strong). No passado, Thaddeus também foi convidado pelo misterioso Mago a se tornar um guardião da Terra, mas ele mostrou não ser uma pessoa boa o bastante. Dessa forma, Thaddeus passou o resto da vida tentando reencontrar o mago, e provar que ele estava errado. Ao finalmente cumprir seu objetivo, ele opta por libertar as encarnações dos setes pecados capitais, presas até então pelo mago, e que prometem auxiliá-lo a conquistar tudo o que deseja.

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Por um lado, é necessário reconhecer o propósito satírico em relação a Sivana na trama. Ele é aquele clássico vilão obcecado que, uma vez que passa a ter super poderes, pretende vingar-se de todos aqueles que o desmereceram – sobretudo o seu pai, que sempre o menosprezou. As suas motivações são até exploradas pelo roteiro, mas também há impressão de que ele está deslocado de todo resto do filme. Ele se leva a sério demais, portando-se de forma ameaçadora em excesso, com direito a discurso megalomaníaco e tudo mais. Há até uma cena bem mais pesada e violenta do que o restante do tom do longa, e que por isso, fica mal encaixado na obra. Ao evidenciar esses trejeitos, o roteiro quer, de fato, zombar desse estereótipo, desse arquétipo de personagem que, novamente, está ligado aos filmes das décadas de 80 e 90. Entretanto, o que é uma boa ideia não se transforma em uma boa execução, e essa disparidade entre a seriedade dele e a descontração máxima do herói incomoda, uma vez que a própria atuação de Strong fica um tanto caricata com esse desenvolvimento.

As cenas de luta entre os dois também é um aspecto falho da direção, que poderia ter aproveitado os poderes deles de forma mais criativa, proporcionando uma estética visual melhor para os embates. O lado mitológico relacionado ao herói, sobretudo referente às formas demoníacas dos sete pecados capitais, é outro aspecto que pode causar estranheza para quem não está familiarizado com o herói, que também aparentam estar desalinhados com o resto do enredo.

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Por outro lado, há aspectos que devem ser valorizados. Um deles é o ritmo da produção, que é consistente e nada cansativo, chegando a ser uma surpresa o fato do filme ter 2h10 de duração, uma vez que aparenta ser mais curto. Outro grande acerto do roteiro é o destaque proporcionado para a importância do papel da família na formação de um jovem, sendo que neste caso, é uma família de acolhimento. Na contramão de muitos outros heróis, Billy tem a chance de conviver com uma e de aprender a ser alguém melhor graças aos seus pais e irmãos adotivos. Vale destacar até o paralelo que existe entre a família de Billy e de Sivana, uma vez que eles representam lados opostos de como tratar alguém, e isso influencia nas pessoas que eles são. Além de tudo, “Shazam” é, principalmente, um filme sobre família.

Essa proposta permite que o arco do personagem cresça, e o espectador consiga se relacionar melhor com ele a partir disso. Apesar do mago que o escolheu acreditar que ele era alguém puro, Billy não é, a princípio, uma pessoa boa e altruísta. O longa explora isso ao mostrar que, de início, Shazam é um ser superpoderoso, mas irresponsável. Ele usa seus poderes para ser deslocado, exibir-se e fazer sucesso nas redes, viralizando com vídeos. Uma abordagem, inclusive, deveras proveitosa, que dá um olhar divertido e até realista de como um herói seria midiatizado nos dias atuais. Contudo, quando ele é confrontado com o perigo ou a responsabilidade, Shazam prefere omitir-se. É a partir da ajuda de seu irmão, Freddy (Jack Dylan Grazer), que o personagem passa a ter uma compreensão melhor do que ele deve fazer, fazendo com que Billy amadureça.

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Além dessa valorização da família, outro coração da obra é a atuação de Zachary Levi na pele do herói. Assim como Gal Gadot e Jason Momoa, Levi encaixa-se como uma luva no papel, e ele é um dos grandes responsáveis pelo filme ser tão divertido e atender sua proposta. A química entre ele e Grazer funciona muito bem, com o timing cômico da dupla sendo fundamental para fazerem as piadas funcionarem, em dois bons trabalhos. Dá para perceber que Levi está se divertindo no papel, e ele transmite que realmente é uma criança em um corpo adulto, o que torna as suas falas e reações mais críveis. Curiosamente, Asher Angel contrapõe isso com uma atuação mais sóbria, menos extrapolada e com uma carga dramática maior. Combinados, eles adicionam muito ao personagem.

Por fim, “Shazam” sinaliza que o futuro da DC, ao menos em relação ao seu universo compartilhado, tende a ser mais otimista, e que essa nova roupagem tende a acrescentar para os filmes. A produção também tem êxito em apresentar o personagem para o grande público e, a julgar pelos desdobramentos do longa, há potencial para explorar ainda mais a mitologia do personagem no futuro. O próximo rival? O Adão Negro de Dwayne “The Rock” Johnson.

Nota: 7,5/10.

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