Vingadores: Ultimato

“Novo longa da Marvel é um desfecho épico e emocionante para a saga construída pelo estúdio na última década”

Por Luís Gustavo Fonseca

Aviso: esse texto não contém spoilers sobre a trama e os detalhes de “Vingadores: Ultimato”, mas aborda aspectos relativos à obra que não estão claros no material de divulgação longa. Portanto, é recomendável a leitura após ter visto o filme.

Foram 11 anos e 21 filmes caminhando para que chegasse neste momento. Anos que envolveram apostas em personagens desconhecidos, que tiveram tropeços e muitos acertos. Uma jornada pioneira na história do cinema, na qual um universo foi compartilhado por diversas franquias diferentes para a construção de uma narrativa coesa. “O destino sempre chega”, diria Thanos, e agora, o Universo Cinematográfico da Marvel alcança o seu ápice com “Vingadores: Ultimato”.

Ao final de “Vingadores: Guerra Infinita”, Thanos completa seu grande objetivo: dizimar metade da vida no universo, acreditando que, assim, estaria salvando a outra metade. Vencedor, ele se retira para um planeta distante e praticamente se aposenta. Desta forma, ele coloca os Vingadores remanescentes em uma posição que eles não tinham enfrentado: a de lidar com o fracasso em salvar não apenas a humanidade, mas as pessoas que amam. Ao se depararem com o luto causado pela derrota, os heróis se veem forçados a seguir em frente, mesmo a contragosto. É com a reaparecimento do Homem-Formiga, contudo, que eles vêem uma oportunidade de derrotarem o Titã Louco e fazerem justiça aos que se foram.

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Emocionalmente, “Ultimato” é o mais poderoso de todos os filmes do MCU. O final de “Guerra Infinita” foi devastador e mexeu com o público, mesmo que, no fundo, havia a certeza de que aquilo seria revertido. Mas a forma como os personagens devem lidar com a perda no início deste novo filme mostra como eles foram atingidos psicologicamente pelo estalar de dedos de Thanos. Ao longo do seu primeiro ato, “Ultimato” se comporta, muito bem, como um drama, seguindo os passos que  “Logan” executou brilhantemente há dois anos. Sóbrio, o roteiro assinado por Christopher Markus e Stephen McFeely (os mesmos de “Guerra Civil” e “Guerra Infinita”) permite um ritmo mais lento, cadenciado, no qual explora as diversas maneiras como os heróis foram afetados por isso.

É neste primeiro momento, que tem uma dinâmica tão distinta em relação aos demais filmes do MCU, que a obra tem a oportunidade de adicionar um peso emocional aos personagens, complementando ao que foi trabalhado nos longas anteriores. Esse lado dramático é bem desenvolvido, e serve para mostrar uma outra faceta de personagens como Tony Stark, Steve Rogers e Natasha Romanoff. Ao mesmo tempo, esse começo serve para reforçar tanto as amizades dentro do grupo, e de como um precisa do outro para seguir em frente, como para evidenciar como os episódios mudaram as pessoas – caso de Gavião Arqueiro, Thor e Hulk.

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Para além disso, são adicionados novos elementos que tornam a carga emocional da jornada ainda maior, dando um senso de gravidade ainda mais envolvente para a trama. A conjunção desses novos fatores, somado a bagagem dos personagens, aprimora a jornada deles dentro da produção, e isso potencializa a história como um todo. “Ultimato” não é o fim do Universo Marvel, mas é, sim, um capítulo final para o arco iniciado em 2008. O longa trabalha o desfecho de alguns arcos, e é gratificante ver como a obra trabalha isso tão bem. Algo que respeita a trajetória dos personagens e é carregado com emoção e epicidade.

Apesar do tom mais pesado, o texto também encontra espaço para incluir os já conhecidos alívios cômicos que acompanham as produções do estúdio. Ao longo desses 11 anos, esse humor muitas vezes foi criticado, principalmente por estar mal colocado dentro da cenas. Não é o caso aqui, já que o clima tenso ele é mantido mesmo com a inserção das piadas. É um mérito conquistado pelo roteiro e pela edição conseguir construir um enredo que consiga, na mesma proporção, divertir e emocionar o público. A história se leva a sério, e apesar do cenário adverso, a personalidade cativante dos personagens – Rocket Racoon, Thor e Homem-Formiga são alguns bons exemplos disso – conseguem tirar o riso de toda a sala.

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Ao contrário do que, talvez, poderia se esperar, as 3h de duração não são um problema e a dinâmica do longa não é atrapalhada. Sim, o primeiro ato é mais devagar, mas a partir do momento que o escopo da história é traçado, o ritmo é acelerado e a transição entre os diferentes núcleos funciona. Isso era algo que “Guerra Infinita” já tinha feito com honras, e aqui, eles repetem a boa dose. O clímax é um espetáculo visual, com uma sequência de cenas de ação que entram para o hall de grandes terceiros atos do cinema – colocá-lo ao lado de longas como “Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” é natural.

Dirigindo seu quarto filme pela Marvel, os irmãos Russo terminam sua colaboração na Marvel (ao menos, por enquanto) no ápice. Desde “O Soldado Invernal”, eles haviam mostrado competência na escolha das temáticas dos longas, no desenvolvimento dos personagens e em como combinar diferentes núcleos de forma tão orgânica. As cenas de ação, principalmente nos duelos corpo-a-corpo, sempre foi um aspecto chamativo, e mesmo quando os conflitos tornaram-se maiores, eles souberam aproveitar o uso das habilidades dos personagens e a combinação delas.

Ultimato 05

Outro destaque é como a fotografia, feita pelo diretor de fotografia Trent Opaloch, adapta-se a atmosfera distinta da obra: mais gelada, sem o destaque das cores no primeiro ato; mais nostálgica no segundo, principal momento em que a produção homenageia toda a trajetória da Marvel até aqui, com as cores já começando a voltar; e com elas e a luz totalmente de volta no clímax. Por maior que seja o escopo do que se passa em tela, a direção sempre preza para deixar tudo claro e entendível para o espectador.

As atuações podem não ser o aspecto do longa que mais chamará a atenção, mas muito da ligação emocional que o público têm com os personagens acontece pela carisma conquistada pelos atores e de como eles se fundem ao papel, tornando-os críveis. Em “Ultimato”, o trabalho da equipe no geral é ótimo, mas alguns se sobressaem: caso de Robert Downey Jr., principalmente pela intensidade existente no primeiro ato; Chris Evans, agora mais claramente ocupando o cargo de líder da equipe e tendo uma ótima química com Downey Jr., após os acontecimentos de “Guerra Civil”; Scarlett Johansson, um dos pontos emocionais mais fortes do longa, com um destaque maior do que em outras aparições dela; e Karen Gillan, com uma participação como Nebulosa que talvez vá surpreender há muitos, mas que torna o arco da personagem mais completo e faz sentido dentro da narrativa.

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Assim como em “Guerra Infinita”, o compositor Alan Silvestri consegue proporcionar o mix perfeito do dramático, mais sóbrio, com o épico, incrivelmente emocional. Ela ajuda a colocar o espectador dentro do filme e, certamente, melhora toda a experiência. Apenas dê o play abaixo e sinta o poder dessa trilha:

Algumas execuções dentro do filme, contudo, não são bem realizadas como outros aspectos. Uma vez apresentado um dos principais argumentos do roteiro, que embasa o segundo ato da obra e permite o restante da jornada, alguns furos – característicos desse tipo de decisão – ficam evidentes quando se para para pensar no longa de cabeça fria. Questões que exigem um pouco mais de suspensão de descrença do que o padrão da Marvel e que não comprometem a qualidade final, mas que ainda estão presentes.

A produção também perde a chance de aproveitar melhor alguns de seus personagens, talvez por ser um filme com tantos elementos quanto “Guerra Infinita” e que não permite uma divisão justa entre eles. O mais notável desses desperdícios é a Capitã Marvel, surpreendentemente subutilizada. Desde que Nick Fury a chamou na cena pós créditos de “Guerra Infinita”, muito se esperava sobre o que ela poderia acrescentar ao grupo no embate contra o Thanos – reforçado depois pela demonstração de seus poderes em seu filme solo, lançado em março deste ano. Mas ela acaba sendo deixada de lado na maior parte da trama, resumindo a sua breve participação a dois momentos “deus ex machina”.

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Por um lado, essa decisão evitou que se comete-se o mesmo erro que fizeram com Superman em “Liga da Justiça”: de que ela chegaria e resolveria a questão com facilidade, com o filme podendo ter 15 minutos de duração (para a alegria das bexigas de muita gente). Ao lado de outras personagens, ela está presente em uma das grandes cenas do filme, que fez a sessão vibrar. Mas sua participação, quase pontual, não deixa de ser uma surpresa negativa. Não só porque quando ela interage com os outros, rende bons momentos – e o público poderia ter desfrutado mais disso -, mas também porque espera-se que ela seja um dos principais pilares do futuro da Marvel. O longa perde a chance de integrar ela com o restante dos personagens de uma forma mais consolidada.

Outro ponto que particularmente me causa sentimentos conflituosos é a abordagem de Thanos dessa vez. O vilão se tornou um fenômeno cultural no último ano, sendo elogiado pela crítica e pelos fãs pela atuação de Josh Brolin, pelo primor do CGI e por ser um antagonista bem trabalhado, algo que por anos a Marvel penou em trabalhar. “Guerra Infinita” é um longa sobre o vilão no qual os heróis são coadjuvantes, e é nele que suas motivações, objetivos e personalidade são explorados. O mérito foi tão grande que o público se conectou e até mesmo simpatizou com o personagem, o que aumentou ainda mais a expectativa para sua nova aparição – algo que pouquíssimos vilões da Marvel tiveram a oportunidade.

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Agora, sua abordagem é um tanto mais maquiavélica, com o personagem mais inclinado a ser mau justamente “porque sim” do que por ter uma motivação que possa ser tão cativante quanto no longa antecessor. Isso o torna um pouco mais raso do que visto anteriormente, ainda mais por, curiosamente, ser uma leitura que o aproxima mais de sua versão nos quadrinhos. Claro, ele ainda é ameaçador, tem grande presença de tela e o público vibra com ele enfrentando os heróis, mas uma vez que ele deixa ser o destaque e se torna um coadjuvante, dando espaço para os Vingadores – sobretudo, os originais -, seu desenvolvimento não tem o mesmo brilho de antes. Ao menos, o desfecho da jornada do personagem apresenta um nível respeitoso por parte dos realizadores e digno do que ele fez nas tramas, e isso colabora para, mais uma vez, engrandecer a passagem do vilão pelas telonas. Ele exigiu o melhor dos Vingadores e, ao fazer isso, mostrou todo seu valor para enfrentar o grupo dos Heróis Mais Poderosos da Terra.

“Vingadores: Ultimato” encerra uma longa saga planejada pela Marvel há mais de uma década, sendo o ponto final de um capítulo que transformou o cinema e deu uma nova dimensão ao papel dos super-heróis na cultura pop atual. Com uma trama que é uma montanha russa de emoções e um final épico, os irmãos Russo cumprem a difícil tarefa de entregarem uma obra que dê conta de tamanha responsabilidade. O futuro do estúdio contará com mais produções, com personagens ainda mais diversos, e que têm tudo para continuar o legado construído aqui. O desfecho proposto por “Ultimato”, no entanto, talvez seja um momento único deste universo. Uma sorte imensa para aqueles que puderam acompanhar essa caminhada ao longo da última década e serem recompensados de dessa forma. Obrigado, Marvel.

Nota: 9/10.

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