Pokémon: Detetive Pikachu

“Apesar de problemas em relação ao tom, longa faz boa e divertida transposição do clássico universo dos jogos para o mundo live-action”

Por Luís Gustavo Fonseca

Com mais de duas décadas de existência, Pokémon se tornou, definitivamente, um dos maiores fenômenos culturais da cultura pop recente. Um sucesso dos jogos que se expandiu para os desenhos, que depois criaram ainda uma série de filmes, a saga protagonizada pelas fantásticas criaturas cativou fãs ao redor do mundo, tendo sua relevância provada ao lançamento de cada novo jogo – basta lembrar da febre que foi Pokémon GO em 2016. Agora, um de seus personagens mais célebres, Pikachu, enfrenta um novo desafio: reproduzir esse sucesso em uma versão live-action da adaptação dos games. Algo tão “simples” como derrotar um líder de ginásio.

Na trama, Tim Goodman (Justice Smith) é um garoto solitário que, ao contrário de seus amigos e outras pessoas, não tem um Pokémon como companheiro. Isso não o incomoda, já que ele tem uma vida pacata no interior com sua avó e iniciando sua vida profissional como corretor de seguros, longe das conhecidas batalhas entre Pokémon. A vida do jovem, no entanto, é virada de cabeça para baixo quando ele recebe uma ligação da polícia de Ryme City e descobre que seu pai, o detetive Harry, foi dado como morto.

Ao viajar para a famosa cidade, uma utopia idealizada por Howard Clifford (Bill Nighy), na qual Pokémon e humanos vivem em harmonia, sem batalhas, Tim acaba encontrando o parceiro Pokémon dele, um Pikachu falante (dublado por Ryan Reynolds), que Tim é o único que consegue entender. Juntos, apesar das diferenças, eles começam a investigar os motivos da morte do pai de Tim, e como a amnésia que atinge o Pikachu pode ajudar a resolver este mistério.

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Por serem tão cartunescos, seja no jogo ou no anime, a ideia de que os visuais dos Pokémon pudessem manter sua identidade, ao mesmo tempo em que se tornam críveis dentro de um live-action, era algo difícil de se pensar. E também de ser executado. Por isso, é com surpresa que se nota como os efeitos especiais conseguem um trabalho positivo neste aspecto, conseguindo trazer as criaturinhas para o mundo real de uma maneira agradável. Nem sempre de uma forma tão orgânica, já que há momentos em que a integração deles com os cenários não ficam boas, com eles ficando deslocados do restante da cena. No geral, entretanto, é um feito conseguido pela obra, que dosa na medida certa o realismo com o lado cartunesco das criaturas.

O maior mérito dessa realização está na textura dos Pókemon, que proporcionam uma sensação de estarem ali e serem algo tangível, que você possa tocar. Os pêlos do Pikachu, a pele do Bulbassaur e as escamas de Charizard são alguns desses exemplos, e isso colabora muito para a imersão dentro do filme. É um mundo mais rico, mais cheio de detalhes e nuances, algo que enriquece a experiência e faz com que estar dentro dele seja gratificante, principalmente para quem é fã da franquia.

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A direção e o roteiro alternam entre pontos altos, com boas ideias, e pontos mais baixos, com decisões que prejudicam a obra e apontam para tons distintos que há dentro da produção. O diretor Rob Letterman (“Goosebumps – Monstros e Arrepios”) faz um trabalho razoável, aproveitando-se dessa imersão visual e sabendo casar o uso da fotografia com a presença dos seres, mesmo nas cenas mais escuras. É uma direção que não corre muitos riscos, fazendo algo mais padronizado, e que talvez por isso peque nas cenas de ação. O live-action tinha a chance de proporcionar embates mais intensos, e visualmente mais chamativos, do que o anime, mas esses momentos, assim como o uso das habilidades dos Pokémon, são usados de maneira, surpreendentemente, escassas. Um desperdício de um dos aspectos mais marcantes da franquia.

Já o roteiro acerta no tom do longa, que é infantil e engraçado, e claramente é voltado para um público mais jovem. O texto não perde tempo explicando aquele mundo e suas regras, mas isso não se faz necessário, uma vez que a prioridade da produção é atingir aqueles que estão, de certa forma, já familiarizados com este universo. O ritmo não é sentido ao longo das 1h45 de projeção, de forma que a obra não canse nem se torne entediante.

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O texto foca bastante na relação entre Tim e Pikachu, que funciona, apresenta uma boa química (mesmo que seja uma jornada clássica entre dois personagens que não se conectam a princípio, mas vão se gostando no decorrer da história) e é o coração da obra. Como um fã da trilogia “Fronteiras do Universo”, destaco o paralelo que pode ser feito entre a relação dos humanos e os Pokémon com a ligação entre os humanos e os demons nos livros. No longa, a pessoa ter um parceiro Pokémon é algo tão comum, tido como tão essencial para elas, que todas estranham o fato de Tim não ter um companheiro. Isso é uma forma de dizer muito sobre o protagonista: sobre como ele se sente solitário, de como a morte de sua mãe e a eventual separação dele com o seu pai o afeta, e de como o surgimento desse caso é algo que mexe com questões de seu passado, com ele se vendo forçado a se reconectar com o pai, mesmo de forma indireta. É uma forma de desenvolver o personagem e ancorar o lado cômico da obra com uma parte mais emocional.

Entretanto, o enredo se perde em sua segunda metade e na solução da trama, abordando um tom muito diferente do que apresentando até então. O terceiro ato é marcado por um escopo maior, mesmo megalomaníaco dada a proposta da trama, e isso tira muito o espectador da trama. Ao trocar a abordagem mais íntima e investigativa, remetente aos filmes de detetive noir, por esse grande espetáculo, a obra acaba com dois tons distintos, com o segundo tendo um desenvolvimento muito mais fraco do que o inicial. O antagonismo da produção também não é tão carismático quantos os protagonistas, o que desequilibra a história e tira um pouco do peso da trama.

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Um dos principais chamativos da obra é a dublagem de Ryan Reynolds era um dos principais chamarizes da obra, apostando no timing cômico que o ator mostrou em filmes como “Deadpool”. A dublagem brasileira do filme, mesmo perdendo algumas piadas – o que sempre acontece -, tem um bom trabalho e consegue manter o clima da obra, sem causar estranhamento. Méritos de Philippe Maia, responsável por dar a voz ao icônico Pokémon.

Com o público infantil e os fãs em mente, “Pokémon: Detetive Pikachu” tem problemas, mas consegue o feito de reapresentar um mundo tão conhecido e explorando-o por um novo ângulo. O resultado é satisfatório e há potencial para a franquia crescer no cinema, agradando fãs e mostrando novas nuances deste universo. Dada a quantidade de Pokémon que existem, ainda há muito o que ser visto nas telonas.

Nota: 6,5/10.

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