Godzilla II – Rei dos Monstros

Núcleo humano ainda não convence, mas continuação acerta ao promover uma épica batalha entre titãs

Por Luís Gustavo Fonseca

Em 2014, a Warner Bros. investiu pesado na criação de um novo universo compartilhado, seguindo a fórmula de sucesso que a Marvel havia emplacado. Apostando nos clássicos monstros que marcaram o cinema, ela deu uma nova roupagem ao Godzilla, mitológica criatura do cinema japonês, e dando início ao chamado Monsterverse. Em 2017, um novo elemento deste mundo foi visto em “Kong: Ilha da Caveira”, atualizando o King Kong. Agora, é chegada a hora de um novo capítulo da história do Rei dos Monstros, enquanto o encontro entre as duas entidades ainda não acontece.

Na trama da sequência, a doutora Emma Russell (Vera Farmiga) é responsável por criar um aparelho capaz de se comunicar e até mesmo controlar as gigantescas criaturas, uma ferramenta que poderia ser útil para evitar uma destruição como a ocorrida no longa de 2014. Entretanto, quando o ecoterrorista Jonah Alan (Charles Dance) sequestra Emma e sua filha, Maddinson (Millie Bobby Brown), ele pretende usar o aparelho para libertar os titãs e promover o que ele acredita ser balanceamento natural do planeta, salvando-o da destruição causada pelos humanos – mesmo que isso signifique a morte de bilhões de pessoas. O marido de Emma, Mark (Kyle Chandler), com o auxílio da Monarch, fará de tudo para impedir a catástrofe completa. E isso envolverá auxiliar aquele ser que ele mais odeia no mundo: Godzilla.

Apesar de seus méritos, a produção de 2014 entrega um resultado regular, desperdiçando uma chance de ouro de ter um épico com criaturas gigantes como “Pacific Rim” havia feito um ano antes. A fotografia demasiadamente escura, tornando difícil ter uma compreensão do que acontece em tela, como o subaproveitamento do astro Bryan Cranston, que na época estava no seu auge após o fim de “Breaking Bad”, foram alguns dos fatores decisivos para esse resultado. A escolha de esconder o titã japonês em certas partes do longa, algo que remete a estratégia utilizada em “Cloverfield”, mostrando apenas o que ele fez, mas não como ele fez, também é algo irritante, uma vez que a luta entre ele e os MUTOs tinham um enorme potencial para um espetáculo visual, mas por várias vezes, isso fica no “quase”. Eram questões que eu esperava ver como a continuação iria resolvê-las.

Nesse sentido, a sequência corrige alguns desses erros, na mesma medida que ainda falha em outros aspectos. No lugar de Gareth Evans (“Rogue One: Uma História Star Wars”), a direção foi assumida por Michael Dougherty (“Krampus: O Terror do Natal”), que faz a importante mudança de dar uma maior prioridade para o Godzilla, agora se tornando um elemento mais participativo na narrativa, com direito a um arco próprio. Desta maneira, ele tem a chance de “brincar” mais com as criaturas do filme – como velhos conhecidos da mitologia de Gojira, como Rodan, Mothra e Rei Ghidorah -, promovendo aquilo que o espectador mais ansiava na obra: os grandes embates entre os titãs.

É DISSO que o povo gosta!

De uma maneira geral, as cenas de ação são mais compreensíveis em relação ao longa anterior, mais claras e dando uma dimensão melhor dos acontecimentos em tela. Poderia ser ainda mais claro se não fosse pelo uso constante de um clima tempestuoso, seja uma chuva torrencial ou uma forte nevasca, que acabam prejudicando a visibilidade do que está acontecendo. Essas grandes cenas de ação são marcadas por uma câmera que balança muito e cortes secos e, apesar de isso ser um tanto irritante e quase desorientador, tem uma função narrativa justa: mostrar o quão pequenos somos diante desses seres, que ao executarem ações simples (como voar, andar ou nadar), são capazes de criar um cenário caótico para os humanos. Por outro lado, Dougherty acerta ao mostrar as lutas em planos mais abertos, explorando toda a grandiosidade das lutas: um espetáculo visual para não por defeito.

Já o roteiro acerta em ancorar o espectador, desde o princípio, sobre os principais personagens que ele deseja trabalhar na trama, não cometendo o mesmo erro da produção de 2014: envolver emocionalmente o espectador com Cranston no começo, para dispensá-lo no fim do primeiro ato. Apesar disso, o texto acaba por sofrer com um mal já conhecido pela franquia “Transformers” em seus filmes, e de qual teve pouco êxito: em uma história com seres tão extraordinários, é necessário dar tanto enfoque aos humanos? Neste caso, nem é o caso dos principais não terem o mínimo de profundidade. O longa deixa claro as motivações de Emma em criar o aparelho que controla as criaturas, assim como em mostrar a dor existente em sua família, que causou sua separação com Mark e que, por parte dele, o afastou da sua filha e o fez desenvolver um grande ressentimento com todos os monstros.

Contudo, existem decisões questionáveis no desenvolvimento da trama. A motivação do vilão Jonah Alan é clara e mesmo pertinente, mas surpreende como ele consegue convencer outros a compartilharem dessa visão, sobretudo quando o filme mostra o quão mais inteligente outros personagens são. Isso não apenas retira parte da empatia que se tem por eles, mas também retira parte da credibilidade no desenvolvimento de seus arcos, que são convencidos com facilidade e mudam de opinião e posicionamento de forma súbita, sem grandes explicações. São aspectos que não chegam a atrapalhar o ritmo da obra, mas tornam todo o núcleo humano menos interessante.

Talvez por isso, poucos são os destaques em relação às atuações, com duas notórias exceções. A primeira é Millie Bobby Brown, em seu primeiro trabalho nas telonas, e que lida bem com a função de ser uma das protagonistas, transmitindo uma variável gama de emoções, mesmo que sua personagem não seja tão brilhante quanto em “Stranger Things”. Outro é Ken Watanabe, intérprete do Dr. Ishiro Serizawa, de longe o melhor personagem dos dois filmes. O respeito, ou mesmo a devoção, que ele tem por Gojira é contagiante, e Watanabe entrega o quão emocionalmente o seu personagem é ligado ao titã, proporcionando a cena mais bonita da obra.

Visualmente, ela acerta em cheio no design dos titãs, que respeita ao mesmo tempo que atualiza o visual clássico deles, assim como é preciso ao mostrar a magnitude dos seres: seus movimentos tem peso, impacto, não são puramente acrobáticos, e isso ajuda a tornar as cenas com eles mais reais. A trilha marca sua presença de forma positiva principalmente nas cenas de ação, mas também é competente em colocar diferentes temas para cada uma das criaturas.

Por fim, “Godzilla II – Rei dos Monstros” serve como uma evolução em relação ao primeiro filme, e também serve para expandir o universo de monstros, abrindo portas para onde os futuros filmes podem ir. A próxima parada tem o potencial para ser a mais empolgante até agora: “Godzilla vs Kong” está previsto para estrear em um ano, e irá responder a pergunta já plantada neste: “O que é um rei para um deus?”.

Nota: 6,5/10.

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