Rocketman

“Equilibrando com sabedoria lado dramático com a fantasia de musical, cinebiografia de Elton John tem como base excelente atuação de Taron Egerton”

Por Luís Gustavo Fonseca

Recentemente, o longa que contou a história do Queen para o mundo, “Bohemian Rhapsody“, alcançou não apenas um estrondoso sucesso comercial, faturando mais de US$ 900 milhões no mundo todo, como prestígio na temporada de premiações (algo que surpreendeu a muitas pessoas), faturando prêmios e vencendo o Oscar de Melhor Ator com Rami Malek. Meses depois e ainda um pouco no embalo desta repercussão, é chegada a hora de outro ícone da música, o britânico Elton John, ter sua vida retratada em “Rocketman”.

Vivido no longa por Taron Egerton, conhecido pelos filmes da franquia “Kingsman“, o longa oferece um panorama geral da vida do cantor, mostrando desde sua infância complicada, onde não recebia o carinho que queria do pai; a descoberta de seu talento em tocar piano; o início da amizade com seu compositor de longa data, Bernie Taupin (Jamie Bell); a ascensão meteórica antes dos 25 anos, tornando-se uma febre no mundo todo e um músico de sucesso; a sua identificação como um homossexual; e como o vício em drogas, bebidas e o gasto descontrolado de sua riqueza o tornaram uma pessoa solitária, triste e deprimida, deteriorando sua carreira até ele decidir se internar em uma clínica de reabilitação, no início dos anos 90.

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Um desafio que se apresenta para obras deste tipo, de encenar a vida de um astro conhecido em todo planeta, é de encontrar um equilíbrio entre a realidade e a ficção, de criar algo que seja voltado para os fãs daquela pessoa, mas que também deva incluir aqueles que não estão familiarizados com a trajetória da celebridade. Uma boa forma de trilhar esse caminho é de humanizar a pessoa retratada, tornando-a mais crível possível. E isso inclui mostrar os erros cometidos pela pessoa durante sua vida.

O roteiro de Lee Hall (“Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha“) é inteligente ao contar essa história no tom dramático certo, pontuando o filme com momentos mais leves, mas sem nunca tirar a seriedade do que é mostrado ou do peso de certas passagens da vida do cantor. Os diálogos são uma peça importante nessa narrativa, já que muitas vezes eles são duros, até mesmo cruéis – quando a mãe de Elton, Sheila (Bryce Dallas Howard), diz que ele passará a vida sozinho -, mas são eles que dão profundidade para a obra, para os dramas internos vividos por Elton, colocando o espectador mais próximo do protagonista.

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Se “Bohemian Rhapsody” acabou sendo criticado por ser uma obra “chapa branca“, não explorando de forma mais clara a vida íntima de Freddie Mercury, principalmente no que tange aos seus relacionamentos com outros homens, “Rocketman” tem uma abordagem mais clara e adulta sobre a vida do cantor, com ênfase para o seu relacionamento com seu agente, John Reid (Richard Madsen). Elton lutou para que o filme mantivesse as cenas de sexo e do uso de drogas, exigindo assim uma classificação indicativa para um público mais velho, pois ele considera que isso foi parte fundamental da sua vida. Em tela, essas passagens ganham a devida importância e se mostram cruciais para o desenvolvimento do protagonista, já que retratam sua instabilidade emocional, suas principais inseguranças e como, a partir disso, ele vai perdendo o controle da sua vida.

Uma tática inteligente utilizada pela produção para exemplificar esse descontrole está na edição e na transição entre cenas. Ao contrário de outros títulos, o filme não coloca o ano em que se passam os diversos acontecimentos, marcando essa passagem de tempo apenas por um leve envelhecimento do protagonista. E devido ao uso das drogas, há momentos em que Elton nem sabe onde está ou com quem está falando, então o longa pula de um período para o outro num piscar de olhos, fazendo com que o espectador fique tão perdido quanto o cantor. Essa decisão torna a obra bastante fluída e com um ótimo ritmo, fazendo com que as 2h de projeção passem despercebidos.

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Se o roteiro mostra que Elton John tinha uma vida pessoal repleta de problemas, sem a aprovação dos pais e sentindo-se traído tanto por John Reid como por Bernie Taupin, o texto também mostra os pontos altos de sua carreira. É o momento que a obra abraça outro lado importante, além da parte dramática: a parte fantasiosa, sem medo de se tornar um musical. Essa escolha se deve, em parte, pela própria maneira como Elton experimentava suas apresentações. Para ele, o público de seu primeiro show nos EUA estava levitando com a música, e isso é traduzido de forma literal para o filme.

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O texto e a edição da produção acertam no equilíbrio entre esses dois lados da vida de Elton, mas é mérito do diretor Dexter Fletcher (curiosamente, o mesmo que assumiu o cargo em “Bohemian” após a demissão de Bryan Singer) a condução dos números musicais da obra, onde ele teve mais liberdade para fazer o que queria do que no filme do Queen. A coreografia das danças e a evolução das cenas lembram o que há de melhor nos últimos anos, como “La La Land“, com a direção construindo essas cenas de maneira criativa e que representem bem o que são as músicas de Elton. O exemplo mais marcante é um plano sequência ao som de “Saturday Night’s Alright For Fighting“, que transita entre um Elton criança e no começo da vida adulta.

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O longa conta boas atuações, mas assim como o caso de Malek em “Bohemian“, será impossível falar da cinebiografia sem destacar a ótima atuação de Taron Egerton, sua mais segura na carreira. Aliado a uma incrível caracterização do personagem, com direito a usar o guarda-roupa completo do cantor, o ator mostra uma excelente presença de cena, conseguindo ser intenso nas partes mais dramáticas, principalmente em passar muita das emoções do cantor pelo olhar, e carrega o filme com facilidade. Sem contar as suas performances musicais, com ele soltando a voz e fazendo grandes interpretações dos clássicos do cantor. Se seguir a lógica que dominou o começo deste ano, Egerton tem chances de sonhar alto com prêmios na próxima temporada de premiações.

Com uma abordagem honesta, “Rocketman” concede uma retratação digna da carreira e das músicas do Elton John, mostrando alguém com profundidade, problemas, mas também cheio de energia para mostrar ao mundo o que gostava de fazer. Uma celebração da vida de Elton para os fãs, assim como um cartão de apresentação para aqueles que conhecer melhor quem o cantor é.

Nota: 8,5/10.

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