X-men: Fênix Negra

“Sem explorar os personagens, capítulo final da saga mutante pela Fox apresenta um desfecho melancólico e desinteressante”

Por Luís Gustavo Fonseca

Se hoje o gênero de super-heróis é o que é nos cinemas, muito se deve a franquia “X-men”, iniciada nos anos 2000. Um verdadeiro marco para o entretenimento, o primeiro filme continuou o ressurgimento iniciado por “Blade” um ano antes e mostrou que, sim, havia espaço para fazer bons filmes do gênero novamente, após o desastre de “Batman & Robin”. Nesses 19 anos, a saga passou por altos e baixos, foi reformulada nos cinemas, criou uma confusa – mas estranhamente, charmosa – linha temporal e comprovou a relevância desses personagens, que continuaram a ter grande apelo do público.

Agora, “X-men: Fênix Negra” marca o capítulo definitivo dessa caminhada, uma vez que a Fox foi comprada pela Disney e os personagens, que futuramente devem se juntar ao Universo Cinematográfico da Marvel, passarão por um reboot. A responsabilidade aumenta pelo filme propor adaptar um dos mais icônicos arcos dos mutantes da história, da Fênix Negra, que já teve sua oportunidade nas telonas em “X-men: O Confronto Final”.

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Acontecendo uma década após os eventos de “X-men: Apocalipse”, o novo longa encontra a equipe de mutantes em uma situação bem diferente: visto como super-heróis pela população, eles atuam para ajudar os humanos quando preciso, com o próprio presidente dos EUA tendo uma linha direta com o escritório de Charles Xavier (James McAvoy). E é a pedido do presidente que a equipe é mandada para o espaço para resgatar a tripulação de uma missão, vítima de uma misteriosa tempestade solar.

O resgate, contudo, não acontece como o esperado, com Jean Grey (Sophie Turner) absorvendo toda a energia da tempestade, quase morrendo no processo. O episódio amplifica seus poderes e a torna mais forte, mas também reacende questões do seu passado, das quais ela foi privada. Sentindo-se traída pelos seus amigos, sobretudo o Professor Xavier, ela tenta descobrir o que está acontecendo com ela. Seu novo poder agora parece não ter limites, com ela despontando como uma ameaça para todo o planeta – e para a frágil relação entre humanos e mutantes.

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Produtor de longa data da franquia, Simon Kinberg assume o roteiro e a direção deste capítulo final, sendo esta sua estreia como diretor de um longa metragem. Sua inexperiência no cargo fica evidente, já que a construção das cenas, desde o posicionamento da câmera até o desenvolvimento das sequências, são as menos inspiradas e elaboradas da série. Prova disso é que é o pior uso dos poderes do Mercúrio (Evan Peters) desde que ele apareceu em “X-men: Dias de um Futuro Esquecido”.

A falta de criatividade se torna mais grave na medida em que as cenas de ação tinham um mérito muito grande em combinar as habilidades dos personagens, o que trazia fluidez para os segmentos e os tornavam mais empolgantes. Há momentos desses combos em “Fênix Negra”, mas longe de serem memoráveis como anteriormente, além de ficarem aquém de outros exemplos do gênero envolvendo equipes, caso dos recentes “Vingadores: Guerra Infinita” e “Ultimato”.

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Essa deficiência quanto a ação é menos grave por causa da trama, uma vez que “Fênix Negra” é mais contido que os últimos filmes da série em relação ao escopo. A história assinada por Kimberg acerta ao focar em Jean Grey (algo que penso que “Confronto Final” errou, ao dividir sua trama com a cura mutante), dando espaço para que seu drama e sua transformação se desenvolvam, com ela indo de uma garota amedrontada pelo que pode fazer para uma força cósmica imparável. Essa construção é feita, de forma interessante, em contraponto há uma desconstrução de Xavier, já que ele tem muitas de suas decisões, do passado e do presente, questionadas pelos demais membros do time. Isso permite uma exploração diferente do personagem, deixa-o menos idealizado e, assim, acrescenta camadas para ele.

Contudo, os acertos param por aí. Uma vez que a Fox foi comprada pela Disney e os personagens, que futuramente devem se juntar ao Universo Cinematográfico da Marvel, passarão por uma reformulação, este último capítulo deveria ter o esmero de fechar os arcos iniciados em “X-men: Primeira Classe”, dando um desfecho para tudo. A impressão que existe é que o roteiro sequer sabe o que fazer com os personagens, o que talvez justifica o fato de Raven (Jennifer Lawrence) e Mercúrio terem uma participação breve na produção. Se o ritmo não chega a ser um problema, com cerca de 30 minutos a menos na duração do filme em relação à “Apocalipse”, faltam elementos para serem acrescidos à história e torná-la mais chamativa.

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Relação entre a protagonista e a vilã, Vuk, não deu liga

Esse subaproveitamento também ocorre com outros velhos conhecidos, como Fera (Nicholas Hoult) e Magneto (Michael Fassbender), pouco trabalhados e que, no caso do clássico antagonista, configura-se como mais um episódio em que não se sabe se querem que ele seja um vilão ou um anti-herói. Todavia, nenhum desenvolvimento é mais pobre e irritante do que da vilã Vuk (Jessica Chastain). Superficial ao máximo, a obra não faz questão de desenvolver suas motivações, tornando-a extremamente oca e sem personalidade alguma. Se, recentemente, Thanos tornou-se uma boa referência de como trabalhar um vilão nas telonas, ela é praticamente o oposto. A personagem poderia ser interpretada por qualquer outra pessoa, que não a popular atriz, que não faria diferença: não há atuação que pudesse fazê-la mais profunda.

Atuações que, muito em detrimento de um roteiro fraco, merecem pouco destaque, com a possível única exceção sendo Sophie Turner, que se esforça para mostrar os momentos distintos da personagem. Nada que, no entanto, seja o suficiente para que ela consiga carregar a trama. Em seu primeiro trabalho no gênero desde “Batman v Superman”, o compositor Hans Zimmer acerta no tema da Fênix Negra, mas fica nisso. É um tema que domina a obra, mas como todo o restante, não se aprofunda, não aproveita temas antigos, seja o da equipe ou o excelente do Magneto, apresentado em “Primeira Classe”, perdendo assim a chance de finalizar essa caminhada da equipe.

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É um tanto melancólico que a última apresentação desses personagens pela Fox tenha sido aquém do que a franquia já mostrou ser capaz de fazer ao longo desses anos. Baseado em um arco tão bom dos quadrinhos, “X-men: Fênix Negra” deveria ter sido mais, e poderia, se tivesse tido o esmero de desenvolver melhor seus personagens secundários. No fim, a história escrita por Chris Claremont e John Byrne nos quadrinhos recebe uma adaptação tão frustrante quanto em “X-men: O Confronto Final“.

Nota: 5/10.

P.S.: Não precisa esperar, pois o filme não conta com uma cena pós-créditos.

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