Homem-Aranha: Longe de Casa

Continuação protagonizada por Tom Holland ainda diverte, mas peca no desenvolvimento de seu protagonista

Por Luís Gustavo Fonseca

Em seus quase 60 anos de balançar as teias por Nova York, poucas vezes o Homem-Aranha teve uma era de ouro tão relevante e proveitosa como o de agora – ao menos, no meio audiovisual. A sua introdução no Universo Cinematográfico da Marvel em 2016 levou, no ano seguinte, ao ótimo “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, no qual o público pode conhecer, de fato, a nova versão do personagem para os cinemas, sendo aprovado pelo mesmo, que mostrou não ter se cansado do segundo reboot em menos de 10 anos. 

O ano de 2018 foi marcado pela sua primeira aparição em um filme d’Os Vingadores, algo que há muito os fãs queriam ver, assim como um novo jogo de PlayStation 4, aclamado pelo público e pela crítica, e um dos finalistas do prêmio de melhor game do ano. Isso sem contar a animação vencedora do Oscar “Homem-Aranha no Aranhaverso”, uma carta de amor ao personagem e que “de quebra” ainda apresentou ao grande público o Homem-Aranha Ultimate, Miles Morales. Agora, “Homem-Aranha: Longe de Casa” chega com a responsabilidade não só de dar continuidade a este momento, mas também de ser o desfecho da fase 3 da Marvel nos cinemas.

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Um novo filme demanda um novo uniforme. E a versão Stealth é uma boa novidade para o armário do personagem.

A trama acontece após o desfecho de “Vingadores: Ultimato”, com o mundo ainda de luto pela morte de alguns dos Vingadores – sobretudo, Tony Stark – e tentando se recuperar do retorno de metade da população do planeta, evento que ficou conhecido como “O Blip”. Em meio ao caos desse retorno, Peter (Tom Holland) e seus amigos (que, convenientemente, também sumiram no estalo de Thanos, assim como a tia May) estão prestes a viajar para a Europa e terem uma breve férias de verão. 

No entanto, os planos de descanso do herói acabam sendo frustrados quando ele é forçadamente recrutado por Nick Fury (Samuel L. Jackson) para combater uma nova ameaça: os misteriosos Elementais, forças da natureza baseadas nos quatro elementos capazes de destruírem o planeta. Com a ajuda de Quentin Beck (Jake Gyllenhaal), o Amigão da Vizinhança terá que fazer de tudo para proteger seus amigos e o mundo, ao mesmo tempo que enfrentará uma difícil questão: será ele o destinado a continuar o legado do Homem de Ferro?

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Um dos principais desafios enfrentados pela obra, a exemplo dos longas do “Homem-Formiga” em 2015 e 2018, é dar continuidade ao universo Marvel após um filme d’Os Vingadores, lançado menos de três meses antes. A expectativa do público sobre “O que virá agora?” é gigantesca e chega a ser injusta com as produções solos dos personagens, que devem equilibrar essa necessidade de responder algumas questões com uma história mais íntima e pessoal para os heróis. Essa ingrata responsabilidade fica a cargo de Chris McKenna e Erik Sommers, dupla de roteiristas de “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” e que aqui, fazem esta caminhada entre acertos e tropeços.

O desenvolvimento em relação a Peter Parker é um dos pontos ilustrativos desses altos e baixos. Tony era, até então, uma figura paterna importante em sua vida, sendo seu mentor nesse mundo de heroísmo, portanto, é claro que sua ausência causa um impacto emocional muito grande no personagem. O longa dedica tempo para mostrar o desdobramento desse novo cenário enfrentado por Peter, com ele tendo que tomar as próprias decisões e assumir suas responsabilidades. Mas não deixa de ser estranho, com um desenvolvimento forçado, o fato do roteiro apertar tanto na tecla dele se tornar “o novo Tony Stark”, o que acaba atrapalhando a dinâmica como um todo, caracterizando a primeira metade da obra com um ritmo inconsistente e pouco chamativo.

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Isso porque essa pressão, de “realocá-lo” dentro do Universo Marvel, ainda mais para desempenhar um papel semelhante ao do Homem de Ferro, acaba destoando da essência da personagem. Claro, assim como do restante do público, eu queria vê-lo interagindo com os demais d’Os Vingadores. Mas raras foram as vezes em que ele toma um papel de protagonismo dentro da equipe, sendo mais um excelente coadjuvante de luxo. O longa anterior foi certeiro em cravá-lo como o “Amigão da Vizinhança”, e é esse aspecto, de mais proximidade com as pessoas comuns, o diferencial para figurões como Homem de Ferro, Thor ou Capitão América.

Por ele ter sido um protegé de Tony até agora, é até natural que o roteiro queira trabalhar essa dinâmica, de dar continuidade ao legado de Stark. Porém, também incomoda como essa opção apresenta um desenvolvimento fraco para Peter, e como isso ocupa boa parte de seu arco no filme. A relutância dele em assumir ou não esse papel é compreensível, mas não é justificável para algumas das decisões tomadas por ele na obra, ainda mais por ele ser um personagem reconhecido por sua inteligência. Se “De Volta ao Lar” mostra a jornada de um Homem-Aranha mais ingênuo, ainda em início de carreira, é frustrante que “Longe de Casa” não apresente uma evolução significativa para o personagem.

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Outros aspectos da vida do herói, por outro lado, têm um aproveitamento mais satisfatório na continuação. A sua relação com seu melhor amigo Ned (Jacob Batalon) não tem o mesmo destaque de antes (mesmo porque Ned ganha um divertido arco próprio), mas a naturalidade com que a amizade dos dois funciona em cena ainda gera ótimos momentos cômicos, com uma dinâmica mais orgânica e bem-vinda do que Peter e Harry Osborn em aparições anteriores. 

Dessa vez, também há mais espaço para MJ (Zendaya), que se torna o interesse romance de vez do herói. A química entre a atriz e Tom Holland funciona muito bem, e mesmo com uma abordagem mais leve, com ele todo desconcertado tentando se declarar para ela, ainda é uma relação com um peso emocional importante, afetando a jornada de ambos. Ainda é o começo de uma relação, mas com potencial para ser tão gratificante quanto Peter e Gwen nos filmes com Andrew Garfield, ou Peter e Mary Jayne na trilogia de Sam Raimi.

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O humor, outra característica essencial do Homem-Aranha, novamente aparece como um dos grandes acertos da produção, sendo um filme divertido mas sem ser demasiadamente cafona, e com um bom ritmo para sua pouca mais de 2h de duração. O diretor John Watts manteve sua abordagem de “De Volta ao Lar”, ainda proporcionando aquela atmosfera leve marcante de longas da década de 80, sobretudo os de John Hughs, na obra, agora com o adicional de ser um road trip movie na Europa.

Se Watts já havia mostrado competência nas cenas de ação no último, aqui ele mostra uma evolução ao lidar com um personagem que tem tudo haver com a mídia audiovisual: Quentin Beck, o Mystério. Na história, ele aparece como um aliado do Cabeça de Teia, mas o personagem é um dos mais conhecidos (e, devido sua roupa, espalhafatosos) antagonistas do herói nos quadrinhos, antes um ex-técnico de efeitos visuais, que como malfeitor cria ilusões realistas e mirabolantes para enganar o Homem-Aranha. Com a evolução dos efeitos especiais no cinema e o advento do 3D na última década, é o momento ideal para o personagem ter sua chance na tela grande. E o filme aproveita isso.

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A caracterização do personagem consegue respeitar o vestuário clássico, incluindo o icônico “aquário” na cabeça, mas ao mesmo tempo é moderno e tecnológico, mostrando ser uma roupa bastante crível para o universo do cinema. Os poderes de Mystério também são muito bem utilizados dentro da obra, visualmente bem chamativos e com a psicodelia da famosa cena de “Doutor Estranho”, o que gera uma imersão muito bem vinda para a produção. Há um ar até aterrorizante para os poderes do personagem, algo que o público pode não pensar a princípio, mas que arcos como “Demolidor – Diabo da Guarda” já mostraram a capacidade de Mystério em infernizar seus adversários.

Beck acaba, de certa forma, também se transformando em uma espécie de mentor para Peter, mas é um personagem com mais nuances do que se supõe, com um discurso próprio que adiciona camadas e lhe torna um personagem melhor modelado, sendo um dos pontos alto da trama. A escolha de Jake Gyllenhaal se mostra um acerto tão bom quanto o de Michael Keaton em “De Volta ao Lar”, com ele sabendo explorar essas diferentes facetas do personagem ao longo da obra, tendo uma atuação sólida e bem aproveitada. Uma boa tradução da jornada do personagem na produção é o tema da trilha sonora, composta mais uma vez por Michael Gianchinno, que destaca tanto seu lado heroico quanto a parte mais sombria, em mais um bom trabalho do compositor.

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Muitas perguntas sobre o futuro do MCU ainda estão abertas, e as cenas pós-créditos, que retornam neste filme, tornam ainda mais instigante os próximos passos do estúdio nos cinemas. “Homem-Aranha: Longe de Casa”, mesmo pecando no desenvolvimento do seu protagonista, responde algumas delas e se prova como uma divertida e proveitosa aventura. Resta, agora, a continuação, que promete virar de cabeça para baixo a vida do Amigão da Vizinhança, continuar com este bom momento.

Nota: 7/10.

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