O Rei Leão, Aladdin e como aproveitar melhor a história a ser contada

Por Luís Gustavo Fonseca

Nos últimos anos, a Disney vem investindo em sua mais nova mina de ouro: remakes de clássicas animações do estúdio, oferecendo a oportunidade para que novas gerações conheçam populares histórias da companhia. Após o sucesso de “Alice no País das Maravilhas”, o estúdio já repaginou uma de suas mais clássicas vilãs, “Malévola”, em um filme solo; recontou os encantos de “Cinderella” e “A Bela e a Fera” em versões modernizadas; e ofereceu uma versão super realista de Mogli em “Mogli: O Livro da Selva”.

Colecionando bilhões de dólares nessas novas versões, a Disney investiu pesado para o ano de 2019, com o planejamento de lançar quatro live-actions. “Dumbo” e Aladdin” estrearam em março e maio, respectivamente, e após o lançamento de “O Rei Leão” agora, ainda haverá a continuação de “Malévola”, em outubro. Apesar do sucesso financeiro, a recepção das obras pela crítica variam entre um tom mais elogioso e algo mais morno, aquém do material original – caso de “O Rei Leão”, o que pode ser uma surpresa para muitos. Mas por que isso aconteceu?

Em poucas palavras: talvez por que o live-action seja uma reprodução quase idêntica do original, apesar de ter meia hora a mais de duração.

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Em tese, essa afirmação seria o que muitos dos fãs do desenho gostariam de ouvir. O longa de 1994 é um dos mais queridos do público geral, sendo uma obra marcante, especialmente, para aqueles que, como eu, nasceram entre 1980 e o fim dos anos 90, e que assistiram à produção durante a infância. Com todo o valor nostálgico atrelado à animação, quanto mais fiel ao material original (e aqui, não estamos falando de “Hamlet”), melhor, não? Bem… Não necessariamente.

“O Rei Leão” tem qualidades, não se engane. Jon Favreau, diretor de “Mogli: O Livro da Selva”, foi ainda mais longe aqui, criando um filme de duas horas que pode ser uma revolução em Hollywood. Com uma técnica batizada de “foto ultra realista”, os animais, cenários e iluminação do filme são de cair o queixo, e fazem duvidar que isso tudo tenha sido feito em realidade virtual, sem nada real. Efeitos que estão no patamar do que mais chamou a atenção nos últimos anos, como os macacos da trilogia “Planeta do Macacos”.

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Mas esse realismo teve seu custo. Apesar dos personagens ainda terem uma personalidade própria, muito do carisma da animação e da expressividade deles se perdeu, o que deixa o filme mais “frio”. Obviamente, trazer essa expressividade para a nova versão era impossível – e nem mesmo é a proposta do filme -, mas é algo diferente (e que pode agradar menos) do que foi visto em “Mogli”, no qual o rosto de atores como Bill Murray, Ben Kingsley e Christopher Walken eram reconhecíveis. Uma impecabilidade visual que acaba sacrificando um pouco da alma da adaptação.

Essa questão, em parte, é recuperada pela dublagem, compensando a expressividade com a atuação vocal. Nas vozes originais, há bons trabalhos como Donald Glover como Simba, a cantora Beyonce como Nala (principalmente quando ambos estão cantando), Chiwetel Ejiofor como Scar, a dupla Billy Eichner e Seth Rogen como Timão e Pumba, o comediante John Oliver como Zazu e James Earl Jones reprisando o papel de Mufasa. A versão dublada, encabeçada por Ícaro Silva e a cantora Iza como Simba e Nala adultos, pode se tornar uma refém maior da nostalgia, já que o apego a dublagem original, mais presente na cabeça do público brasileiro, pode pesar mais na hora de julgar do que as vozes em outra língua.

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Porém, mais do que ser um “documentário do Discovery Channel”, o que talvez seja o grande calcanhar de Aquiles de “O Rei Leão” é a falta de conteúdo no tempo extra que ele tem. A meia hora a mais não prejudicou o ritmo, já que você mal percebe a duração maior. O provável medo de desagradar o fãs, colocando novos elementos, é até compreensível, dado o carinho que o desenho tem. Claro que as novas informações poderiam não serem bem vindas. Parte do público não gostou do passado de Bela e a trama sobre sua mãe em “A Bela e a Fora”, assim como a família que protagoniza o novo “Dumbo”, que tem quase 50 minutos a mais que o desenho, também não cativou a audiência. Aliás, é uma pena que live-action pouco tenha da assinatura do diretor Tim Burton, que talvez tenha sido o principal chamariz da obra. Algo que talvez sirva como uma das justificativas de sua recepção com pouco barulho.

Mas é frustrante como “O Rei Leão” não ousa em algo mais em relação a trama. E aqui, cabe a comparação com o “Aladdin de Guy Ritchie, que também tinha pela frente a dura missão de adaptar outra animação muito querida pelo público. O live-action tem quase 40 minutos a mais, mas usa isso para enriquecer seus personagens. Há mais informações sobre o passado de Jafar, suas motivações e como ele se tornou o principal vizir do Sultão; o gênio de Will Smith ganha um arco próprio, com ele se relacionando com uma das aias de Jasmine e aprendendo mais sobre a natureza humano, o que o torna mais relacionável; e Jasmine se torna uma personagem mais profunda, saindo do arquétipo de “donzela em perigo” (ou, como os dois filmes frisam, um “prêmio a ser ganho”) para alguém mais ativa, com personalidade e dona de seu próprio destino.

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O caso da princesa pode servir melhor para exemplificar uma comparação com as chances que “O Rei Leão” desperdiça. No live-action, a personagem vivida por Naomi Scott ganha uma música própria, “Speechless” (aliás, ela era uma das poucas princesas da Disney que não contava com uma música para si), e a sequência tem tudo haver com o arco da personagem dentro da obra, evoluindo ela de alguma forma. Já “Spirit”, a nova música de “O Rei Leão”, toca após Simba conversar com seu pai e redescobrir quem ele é, com ele correndo atrás de Nala e os dois retornando para a Pedra do Rei para destronar Scar.

A sequência que “Speechless” toca não é uma unanimidade, pois, ao contrário de “Nunca Teve um Amigo Assim” e “Príncipe Ali”, ela parece mais um clipe musical e fica meio deslocada do resto da trama, já que ela se passa dentro da cabeça de Jasmine. Apesar disso, é uma novidade bem vinda, com uma boa letra e uma boa performance de Scott, acrescentando para o arco geral da personagem. Já “Spirit” não aproveita a mesma chance. Ela também parece um clipe, mas de nada serve para desenvolver os personagens, seja Simba ou Nala. Pior: é algo que ofusca a bela trilha incidental do filme, para algo com pouca efetividade.

“O Rei Leão” é um filme bom (daria, no mínimo, uma nota 7), e nessas novas versões, acredito que raras foram às vezes que a Disney errou drasticamente na mão *olhando para “Alice Através do Espelho”*. Mas, para além da questão financeira (o que deve ser a preocupação principal do estúdio), é mais uma obra que, para um público mais velho e que assistiu ao desenho, pode passar a sensação de certa “incompletude”, de que algo está faltando. Se o público mais novo gostar e se interessar pelos desenhos, ótimo, objetivo concluído. Mas talvez seja o caso da Disney repensar como abordar essas obras.

O futuro trará novas versões de “A Pequena Sereia”, “O Corcunda de Notre Dame” e “Mulan”. O primeiro trailer do filme da guerreira chinesa, lançado recentemente, já aponta para algo bem diferente da animação de 1998. Como tantos outros, eu também adoro o Mushu do desenho, bem como as músicas da obra. Mas agora, penso cada vez com mais convicção que o melhor caminho seja contar uma história diferente, mais inovadora, para a personagem. Questão que será respondida em março do próximo ano.

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