Era Uma Vez em… Hollywood

“Nono filme de Quentin Tarantino é uma ótima homenagem à Hollywood dos anos 60, mas deixa de lado algumas de suas melhores características.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Desde que chamou a atenção do mundo com o lançamento de “Cães de Aluguel”, em 1992, Quentin Tarantino galgou rumo ao estrelato dentro de Hollywood. Ganhador de dois Oscar, ambos por roteiro, o diretor conquistou uma legião de fãs no mundo todo, tornando-se um dos cineastas mais populares e influentes dos últimos 25 anos. “Era Uma Vez em… Hollywood”, o seu nono filme – dos 10 que ele insiste que irá fazer antes de se aposentar – chega para remontar a infância do diretor e o fim de uma era marcante para o cinema.

Ambientada em 1969, a história da obra acompanha a história do ator Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê de longa data, Cliff Booth (Brad Pitt). Rick enfrenta uma crise em sua carreira artística, já que ele era uma estrela de um seriado popular na televisão, mas sua migração para o cinema não deu muito certo. Com as chances de alavancar sua carreira cada vez menores, ele encontra-se com poucas opções e cada vez mais desesperado. Algo que também põe em xeque o futuro de Cliff.

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A vida de Rick melhoraria consideravelmente se ele se torna-se amigo de seu mais novo vizinho: o diretor polonês Roman Polanski (Rafal Zawierucha), que havia alcançado o sucesso com o lançamento de “O Bebê de Rosemary” um ano antes. Ele é casado com a atriz Sharon Tate (Margot Robbie), uma estrela em ascenção no mundo do cinema. A vida de Rick, Cliff e Sharon acaba se entrelaçando de uma forma inesperada, em um episódio que mudará a vida deles para sempre.

Antes do lançamento do filme, Tarantino declarou que sua nova produção era seu filme mais pessoal. O obra remete diretamente à sua infância e memórias que ele tinha de Hollywood daquela época e, por isso, ele carrega o longa com referências do período, seja na música – a trilha é um dos fortes de Tarantino -, nas vestimentas, nas produções televisivas ou nos lugares populares que haviam por ali na época. 

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É uma ambientação (muito bem feita, vale destacar) imersiva, com uma excelente fotografia, e que conversa com o público mais velho, que também viveu aquilo. Dentro desse aspecto, ainda há um trabalho muito bom por parte do texto de destacar o período cultural que Hollywood passava na época. A importância da televisão, o movimento hippie, e o momento de mudança pela qual a indústria passava, com antigos formatos e celebridades dando lugar a algo novo.

Porém, essa abordagem pode parecer estranha para uma audiência mais jovem. Sobretudo, por explorar um período não tão cultuado hoje como os anos 80, por exemplo, revisitado inúmeras vezes pelo audiovisual atualmente. Ou por não carregar características tão fortes na cabeça do público geral como as do gênero de faroeste, temática de seus dois últimos filmes.

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Talvez esse recorte e esta aproximação pessoal do diretor com a história, façam de “Hollywood” uma obra mais distinta da filmografia de Tarantino. Por um lado, ele repete alguns dos ingredientes que o qualificou ao longo da carreira. Além da citada imersão, a construção dos personagens principais, os dilemas mundanos enfrentados por eles, a forma como o acaso aparece de forma orgânica na história, as interações entre os personagens e a forma como as relações deles são construídas.

Isso tudo deixa a história muito fluída e facilita que o espectador simpatize com os personagens. O melhor exemplo aqui é Rick Dalton, que mesmo não sendo o exemplo de pessoa a ser seguido, é alguém que conquista o público e o faz torcer por ele. O arco dele é bem desenvolvido, havendo um bom paralelo entre o drama de sua carreira e a jornada do personagem, que torna tudo redondo e bem amarrado.

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Entretanto, é um filme em que algumas das assinaturas marcantes dele não se fazem tão presentes assim. É uma história contada de forma mais linear, com menos flashbacks ou passagens apresentadas em ordem inversa. Comandada por Fred Raskin, que trabalha com Tarantino desde “Django Livre”, a escolha em si não é um problema e nem prejudica a obra, mas há uma perda do charme. 

A antiga parceria de Tarantino, a falecida editora Sally Menke, conseguia como poucas proporcionar uma montagem frenética, que por vezes até podia te deixar perdido, mas que conseguia amarrar tudo de uma forma magistral e compensadora. E era a maneira como essa edição impactava no resultado final que fazia com que as pessoas gostassem ainda mais da história. Tanto que quando a edição, aqui, apresenta essa pegada e acerta, fica aquele gostinho de que Raskin e Tarantino poderiam ter ousado mais.

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Outro ponto da maestria de Menke na edição era como ela lidava com o ritmo e conseguia impor uma dinâmica incrível para a obra. Antes, era difícil o espectador notar a duração do longa, já que a história era tão gostosa de ver que o tempo passava voando. Mas “Hollywood” faz as suas 2h41 serem sentidas. Uma sensação de arrasto que o próprio “Os Oito Odiados” tinha, mas que era causado, em boa parte, pelo fato da história se passar de forma predominante em um único cenário, algo pouco comum no cinema atual. O último ato é o mais “Tarantinesco”, com a cadência já conhecida, mas existe uma lentidão até as 2h de filme que podem ser um tanto maçante.

Outro grande mérito do cineasta são suas linhas de diálogo, preenchidas com conversas sobre temas diversos, parecendo uma discussão que os espectadores poderiam ter em um bar com os amigos. Coisas como o sentido de “Like a Virgin”, como se chama o Quarteirão de queijo na França, os limites da massagem nos pés ou até mesmo a lenda do Pai Mei. Assuntos aleatórios, mas que deixam tudo aquilo mais verossímil e os personagens, mais humanos. E isso não tem o mesmo peso que em outros filmes do Tarantino.  A história como um todo é bem feita, mas não causa uma sensação tão impactante de que você está assistindo a algo dele.

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Se o trabalho com a trama de Rick Dalton é muito chamativo, o de Cliff e Sharon não compartilham do mesmo louvor. E isso afeta nas atuações. Em seu primeiro trabalho desde que ganhou o Oscar por “O Regresso, Leonardo DiCaprio volta em grande forma, em mais um trabalho que mostra porque ele é um dos grandes atores que a indústria tem hoje.  É um papel mais afetado que outros de sua carreira, cheio de tiques, como tosses constantes, mas que enriquecem o personagem. Ele consegue criar um personagem marcante, com camadas, alguém que mesmo sendo medíocre,  conquista a empatia do espectador. A forma como ela controla a cena, alterna entre diferentes emoções em questão de segundos, é de saltar aos olhos.

Já Sharon Tate… A atriz foi assassinada há 50 anos pelos integrantes da Família Manson, grupo criado por Charles Manson que cometeu diversos assassinatos no fim dos anos 60, incluindo o da atriz, na época grávida de oito meses. Por se tratar de uma abordagem pessoal de Tarantino, acredito que ele tenha tido a intenção de mostrar ela como um símbolo, um ideal. Uma representante daquela época – algo que realmente foi.

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Mas é uma representação que não tem impacto para aqueles que desconhecem a atriz e seu trágico destino. E penso que o roteiro peca em não aprofundar em quem era a pessoa – e não o símbolo – Sharon Tate. Há vislumbres disso, como ela se deliciando em ver um filme seu no cinema e presenciar o público reagindo às suas cenas. Mas isso poderia ser mais explorado, como uma forma do espectador se envolver melhor com a personagem. As poucas cenas, que dão uma sensação de “quero mais”, ainda limitam muito o trabalho de Margot Robbie, uma das ótimas surpresas que tivemos nesta década entre as atrizes. Talvez o mais emblemático desse sentimento de desperdício é que as interações entre Tate e os outros dois protagonistas são mínimas, sendo que seria ótimo ver três atores de tão alto calibre interagindo juntos.

E o Cliff Booth de Brad Pitt acaba sendo um meio termo dos dois. Mais explorado que Sharon, ele representa um outro lado daquele universo de glamour e luxo. Tate é o novo e o futuro, em plena ascensão; Dalton é a cara de uma classe em crise e em queda, mas ainda parte de uma elite, que desfruta da riqueza; e Booth é o trabalhador comum, que tem um papel importante para fazer a indústria funcionar, mas que não usufrui dos louros. A relação de amizade que ele tem com Rick ganha outros contornos justamente por isso, no qual, além do companheirismo, ele atua quase como um empregado do ator – que, mimado, nem se atenta para a realidade distinta do dublê. 

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“Era Uma Vez em… Hollywood” é, por fim, uma bela homenagem à infância de Quentin Tarantino e a um período único da indústria cinematográfica. Outro sólido trabalho do cineasta, mesmo sem o peso de algumas de suas melhores características. Se ele realmente se aposentar após seu décimo filme, pode-se dizer que este foi um bom penúltimo ato.

Nota: 7,5/10.

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