Coringa

Atuação brilhante de Joaquin Phoenix é a marca de um filme que detalha a origem e a mente perturbada do mais popular vilão do Batman”

Por Luís Gustavo Fonseca

Em 2019, um dos super-heróis mais populares do mundo, o Batman, completa 80 anos de criação. Ao longo dessas oito décadas, o Cavaleiro das Trevas protagonizou histórias que cativaram o público no mundo todo, seja em quadrinhos, desenhos, jogos ou filmes, conquistando uma legião de fãs no planeta. Entretanto, a data está sendo lembrada de uma forma bem diferente: nesta quinta-feira (3), “Coringa” chega aos cinemas brasileiros, narrando a história de um dos principais arqui inimigos do herói, que também fascinou – e chocou – multidões desde sua criação.

A trama acompanha Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um aspirante a comediante que tenta sobreviver em uma Gotham City repleta de problemas sociais, pobreza, insegurança e violência. Ou, como ele aponta, que está “cada vez mais louca”. Precisando cuidar da sua mãe, doente, e esforçando-se para lidar com seus próprios problemas psicológicos, Arthur é tomado pela desesperança. Isso faz com que ele percorra um caminho que o levará de vez a perda da sanidade mental e o transformará no icônico vilão que o público conhece.

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Mostrar o que fez com que alguém se transformasse no Coringa não é uma abordagem inédita, uma vez que o quadrinista Alan Moore mostrou uma possível origem para o personagem em “A Piada Mortal”. Porém, algo que sempre marcou o vilão foi justamente uma indefinição de quem ele era, com esse mistério sendo uma das fontes de fascínio que ele causa no público. Basta lembrar da abordagem dele em “O Cavaleiro das Trevas”, de 2008, na qual Heath Ledger descreve várias histórias de como ele conseguiu as cicatrizes de seu rosto – todas podendo ser verdade ou mentira.

Esse é um dos desafios que “Coringa” deveria enfrentar, sendo que a dupla de roteiristas, Scott Silver e Todd Phillips (este, também responsável pela direção), opta por uma abordagem crua, ancorada na realidade e mais distante da cacofonia dos quadrinhos. A derrocada de Fleck é, ao mesmo tempo, um estudo do personagem e uma análise da sociedade em que ele está inserido, que colabora para causar algumas de suas atitudes mais violentas.

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E essa abordagem passa, de uma forma até assustadora, por estimular um sentimento de pena do espectador com o protagonista, havendo mérito do texto ao conquistar isso. Arthur é uma pessoa extremamente depressiva, carregada de pensamentos ruins e que tenta ter uma vida suportável por meio do uso de diversos medicamentos, mas que não consegue. Portador de um transtorno neurológico que o faz rir de forma descontrolada, mesmo em momentos inapropriados, ele é visto como o cara “esquisito” do trabalho, sendo mal tratado pelos demais e sem nenhum amigo. Seu único vínculo afetivo é a sua mãe que, doente, tenta enviar cartas para Thomas Wayne (Brett Cullen), por quem ela trabalhou no passado e espera conseguir uma ajuda para tirá-los de sua miserável situação.

O isolamento social de Arthur é reforçado pelo abandono que a sociedade tem para com ele, fazendo um paralelo com o descaso e o sentimento de indiferença que muitas pessoas que passam por situação semelhante enfrentam no dia-a-dia da vida real. Arthur acusa que sua psiquiatra não o ouve, fazendo com que ele se sinta ainda mais desamparado, a ponto de até mesmo questionar sua própria existência. Com o programa social cortado pela prefeitura, junta-se todo esse background ao clima de violência, desemprego e abandono de Gotham. 

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Assim, surge o Coringa. Mais do que como um vilão, mas também como um ideal: alguém que representa a insatisfação popular contra o sistema e os mais ricos, servindo de inspiração para que outras milhares de pessoas se tornem violentas.

E é aí que se chega ao ponto mais controverso de “Coringa”, que vem sendo debatido entre críticos desde a estreia do filme no Festival de Veneza. Existe o temor de que a obra esteja glamurizando e enaltecendo o personagem, transformando-o em um herói e um modelo a ser seguido. Por um lado, considero toda a construção do personagem feita com muito esmero, adicionando camadas ao protagonista e tornando-o alguém mais humano, muito mais do que um mero antagonista de um super herói (que aqui, nem existe). Um acerto imenso do roteiro, que desenvolve o personagem, cria uma crescente para a narrativa satisfatória e proporciona um excelente ritmo para a trama.

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Todavia, sinto que a produção peca em não estabelecer, de forma mais clara, uma linha de pensamento em oposição ao do Coringa. Seus atos chegam a ser confrontados, brevemente, de forma verbal no clímax da obra, mas mais sobre isso poderia ter sido trabalhado. Claro que, evidentemente, espera-se que o telespectador tenha em mente que o filme se trata de um vilão, o mesmo que assassinou, agrediu, violentou sexualmente, abusou fisicamente e psicologicamente de sua parceira e cometeu diversos outros crimes no decorrer da história. 

De uma forma mais subentendida, está claro no texto que o objetivo do filme é provocar quem assiste, mas fazê-lo chegar a conclusão de que o protagonista não está certo. Porém, justamente por estar nas entrelinhas, é que se perde a garantia do entendimento e abre espaço para outras interpretações. Neste caso, seria melhor o filme optar por ter um texto mais prolixo, mastigando mais as ideias, mas que diminuíssem as chances de se ter isso.

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O isolamento de Arthur também pode ser percebido de forma visual, com Todd Phillips dedicando várias cenas do personagem sozinho, solitário ao lado de suas próprias angústias. Tais momentos contemplativos servem para conectar ainda mais o espectador com o personagem, criando um vínculo emocional que é testado durante a obra, sobretudo nas violentas cenas nas quais ele se descontrola. Mas ao contrário do que o clima do filme pode sugerir, muitas dessas cenas são claras, com uma fotografia que realça as cores e torna tudo mais vívido, principalmente no ato final da produção.

Para além da discussão sobre o roteiro, outro aspecto que marcará o longa-metragem é, sem dúvidas, a excelente atuação de Joaquin Phoenix. Uma interpretação cativante e hipnotizante, na qual ele consegue dizer muito sobre o personagem apenas pelos movimentos corporais e as expressões, carregadas de intensidade. A temática do filme e os olhares de Phoenix permitem um paralelo com o Travis Beckie de “Taxi Driver”, produção que muitos apontam como uma das fontes de “Coringa”, sendo que de certa forma até os discursos dos dois personagens têm pontos em comum. Uma provável influência de Martin Scorsese, que atua como produtor do filme – sendo que outro filme seu, “O Rei da Comédia”, também serve de inspiração para vários momentos da obra.

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Com o filme recém lançado, ainda é cedo realizar comparações, mas dá para colocar a atuação de Phoenix no mesmo patamar do trabalho de Heath Ledger, que conquistou o público a mais de uma década e lhe rendeu um Oscar póstumo de Melhor Ator Coadjuvante. São trabalhos que têm pontos fortes em aspectos diferentes, que resultam em personagens distintos, mas ambos de uma forma muito poderosa, que marcam que vê. Uma aposta certa para a indicação do Oscar no próximo ano. Ele rouba a cena e fica com todos os holofotes, mas o elenco de apoio, formado por Robert De Niro, Zazie Beetz e Frances Conroy não deixam o nível cair quando acionados.

A trilha sonora da compositora Hildur Guðnadóttir, recém premiada com um Emmy por seu trabalho em “Chernobyl“, é outro destaque. Os violoncelos e instrumentos de sopro ditam o ritmo e criam uma atmosfera sufocante e dominadora, que incomoda e fascina de uma forma diferente do que feito por Hans Zimmer em “O Cavaleiro das Trevas“, mas igualmente marcante.

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Por mais que esteja em torno de polêmicas, “Coringa” é um excelente filme que, definitivamente, marcará o gênero de adaptações de quadrinhos. Cru, real e intenso, o retrato apresentado do famoso vilão Batman não deixa de ser, também, um reflexo da própria sociedade que consome a obra, provocando e fazendo com que o público questione seu relacionamento com o Palhaço do Crime. Um resultado final que, mesmo perturbador e problemático, tem um mérito próprio que deve ser reconhecido.

Nota: 9/10.

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