Entre Facas e Segredos

Rian Johnson acerta em cheio ao criar trama de mistério original e que foge do padrão”

Por Luís Gustavo Fonseca

Se há um gênero no cinema que consegue envolver e despertar o fascínio do espectador, de tal maneira que ele se vê praticamente dentro do filme, é o gênero whodunnit, ou “Quem matou?“. Ao longo das décadas, filmes como “Janela Indiscreta“, “No Calor da Noite“, “Chinatown” e “Seven” caíram nas graças do público ao criarem mistérios recheados de intrigas, suspeitos, reviravoltas e resoluções inteligentes e chocantes. “Entre Facas e Segredos” chega aos cinemas não apenas para ser mais um nesta lista, mas para propor uma visão diferente sobre o gênero.

Com influências de narrativas de mistério como as escritas pela autora Agatha Christie, a trama desenvolve-se em torno do misterioso falecimento de Harlan Thrombey (Christopher Plummer), patriarca de uma rica família. Seus familiares ficam chocados com o acontecimento e, por se tratar de uma figura importante, imediatamente dá-se início a uma investigação que esclareça as causas de sua morte. A princípio, a conclusão dos investigadores é de que a morte se trata de um caso claro de suicídio, algo que não é compartilhado pelo detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), que atua como um consultor no caso. O prestigiado detetive dá início a sua própria investigação, procurando entender mais a fundo aqueles que rodeavam Harlan em seu dia-a-dia.

Knives Out 02
Chris Evans e Ana de Armas com o diretor Rian Johnson

O diretor Rian Johnson (“Star Wars: Os Últimos Jedi”) é o responsável pela direção e roteiro da obra, e o cineasta mostra, mais uma vez, incrível zelo em construir uma narrativa que brinque com as expectativas do espectador. Em “Star Wars”, ele foi criticado por uma parcela dos fãs por subverter aspectos estabelecidos dentro da saga, ao mesmo tempo que contrariou as expectativas criadas no capítulo anterior da franquia – algo que, particularmente, acho que só torna “Os Últimos Jedi” um filme melhor e mais especial. Em “Entre Facas e Segredos”, ele volta a subverter o que se espera de um longa-metragem de gênero como este, conseguindo criar uma trama que seja mais singular e original.

A principal maneira pela qual ele conquista este feito é a condução da narrativa, mas construindo-a de uma maneira diferente. Ele sai de um padrão já consagrado, praticamente procedural, de filmes como este, como o recente “Assassinato no Expresso do Oriente”, adaptação do famoso livro de Christie. Os suspeitos, as motivações e as pistas para a solução do mistério ainda estão lá, sendo explorados aos poucos, mas o desenvolvimento é feito por um outro caminho.

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O primeiro ato é até mais convencional mas, a partir daí, ele inverte a ordem do desenvolvimento dos fatos, de forma que as respostas para as perguntas mais óbvias sejam respondidas muito antes do que o esperado – e abrindo uma série de novas perguntas. O mistério parece ser solucionado de maneira precoce, mas Johnson escreve um texto instigante que mantém presa a atenção do espectador. Ao sair deste modelo mais tradicional – um trabalho e tanto, também, para a edição do filme, que é impecável -, a trama consegue se tornar mais imprevisível e, por isso, é mais gostoso de ver como tudo será amarrado.

Ao construir o enredo dessa forma, o cineasta consegue dar um gás extra a dinâmica do filme, sendo que a obra perde seu ritmo em momentos raros. A direção de Johnson consegue criar uma atmosfera de intimidade, com uma câmera que se aproxima o suficiente dos personagens para criar um laço com eles, mas não a ponto de superar as suspeitas criadas sobre eles. Se a resolução da trama é nebulosa, a fotografia apresenta uma claridade e um realce das cores que evitam criar um clima mais soturno e sufocante, como em “Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres” – curiosamente, outro filme com Craig e Plummer entre os atores principais.

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A subversão proposta pelo diretor é bem-vinda, mas ela também oferece uma contrapartida. Ao procurar mais reviravoltas, penso que Johnson acaba inflacionando um pouco a quantidade de novos elementos presentes no texto, que tornam a história mais confusa e um tanto sem rumo, algo que poderia ser contornado por resoluções mais simples e suaves. Outro contraponto é que um elenco tão estrelado, contendo nomes como Chris Evans, Jamie Lee Curtis, Toni Collette, Michael Shannon, Don Johnson e LaKeith Stanfield, acaba tendo seu potencial desperdiçado. Sobretudo por haver sinais que suas personalidades, bem delineadas, teriam espaço para serem exploradas de forma mais aprofundada, e com os atores tão bem nos papéis.

Os destaques no quesito ficam com Daniel Craig e Ana de Armas, principalmente por mostrarem um alcance grande na performance deles. Graças a franquia “007”, Craig tem atrelado a si a visão de um personagem bruto, sério e de pouca demonstração emocional. Aqui, ele mostra sua versatilidade para encarnar uma cômico, mostrando que ele consegue desempenhar bem um papel mais bem humorado e solto, que acaba sendo uma sátira agradável do Hercule Poirot de Agatha Christie. Já de Armas transita entre uma face mais frágil para uma mais confiante no decorrer da trama, sendo que seu bom trabalho é uma peça chave para evidenciar o crescimento da personagem.

Knives Out 03

O ano vai chegando ao seu fim com “Entre Facas e Segredos” posicionando-se como um dos melhores filmes de 2019. Uma história divertida, bem construída, instigante e que proporciona uma sensação de frescor ao público, atingindo fãs e não fãs do gênero. E um mundo que, se Rian Johnson desejar, pode retornar facilmente no futuro.

Nota: 9/10.

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